Mais uma vez em cena, hoje à noite e ao vivo, o mega-espetáculo cujo magnetismo arrasta todos os anos mais de um bilhão e meio de espectadores de cerca de 130 países para diante dos aparelhos de tevê. Votos computados (5.800), autenticidade comprovada e garantida pela idônea auditoria da Price Waterhouse Cooper. Os míticos envelopes guardados a sete chaves. É o Oscar, o maior prêmio do cinema. Maior? Hollywood acha que sim, mas na verdade a cerimônia, que começa às 23 horas - horário de Brasília - e que mais uma vez terá transmissão na tevê aberta pela Rede SBT, tem sido mais uma festa do cinema marcadamente americano do que qualquer outra coisa. O maior prêmio talvez seja mesmo a Palma de Ouro, já que Cannes resume um sem número de festivais, e é de fato uma grande, imbatível festa, a maior do cinema mundial em suas duas semanas de inesgotável Babel construída simultaneamente por dois turbilhões: de idéias e de brilho mundano. Uma dualidade que o Oscar não tem, até porque não aspira.
Mas Hollywood vem mudando aos poucos, é inegável. Está se abrindo para o cosmopolitismo - devagar, metida na saia justa da globalização. Pode até não ser por vontade própria, mas por uma necessidade de correção de rota, quando a maioria das imagens atualmente produzidas no mundo vêm sinalizando na direção dos problemas, interesses e gostos planetários, distanciados do umbigo de Tio Sam, geradas e interpretadas por gente muito diferente e distante do eixo Los Angeles-Nova York. Nunca se viu, como nesta 76 edição, tamanho afluxo de talentosos estrangeiros concorrentes, um exército composto por neozelandeses, brasileiros, australianos, sul-africanos, um japonês, uma iraniana. Se este reconhecimento e esta infiltração serão ou não ampliados e sacramentados com a entrega das estatuetas, logo mais no Kodak Theatre, ainda é uma incógnita. De qualquer maneira, por este e por outros motivos, é um Oscar que já entrou para a história. Para a nossa, com toda a certeza (leia texto nesta página).
A fantasia ''O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei'', com um amplo leque de nominações (11) e um cartel prévio de premiações importantes como o Globo de Ouro e o Bafta britânico, é com justiça a carta mais forte do baralho de favoritos ao Oscar de melhor filme - e seria o primeiro filme do gênero a ganhar o prêmio máximo. O diretor Peter Jackson, da Nova Zelândia, é a maior ameaça ao brasileiro Fernando Meirelles, indicado por ''Cidade de Deus''. No lugar do filme brasileiro entrou o azarão ''Seabiscuit: Uma Lenda Americana'', do diretor Gary Ross, que por sua vez perdeu a indicação para Meireles. Na briga ainda estão o australiano Peter Weir (direção e filme : ''Mestre dos Mares: o Lado Mais Distante do Mundo'') e os americanos Clint Eastwood com o belo trabalho em ''Sobre Meninos e Lobos'', e Sophia Coppola, merecendo a estatueta antes pelo roteiro original do que pela condução de ''Encontros e Desencontros''.
Entre os forasteiros está a mais jovem candidata à melhor atriz da história do Oscar, a adolescente neozelandesa Keisha Castle Hughes (''Encantadora de Baleias''), que, no entanto, não deve incomodar a sul africana Charlize Theron e sua desglamourizada lésbica assassina (''Monster''), ou a britânica Samantha Morton (''Terras e Sonhos''), ou ainda a australiana Naomi Watts (''21 Gramas'') e a única americana e veterana deste time, Diane Keaton (''Alguém Tem que Ceder''). Entre os atores, os ingleses, Ben Kingsley e Jude Law são minoria diante dos americanos favoritos, um Sean Penn over (''Sobre Meninos e Lobos'') e um modulado Bill Murray (''Encontros e Desencontros''). O japonês Ken Watanabe (''O Último Samurai'') pode levar como melhor coadjuvante, mas o porto-riquenho Benício Del Toro e Djimon Hounsou, africano de Benin, não estão somente para figuração, bem como os americanos Tim Robbins e Alec Baldwin. E entre as atrizes coadjuvantes, repercute nesses últimos dias a campanha antiética da DreamWorks a favor da iraniana Shohreh Aghdashloo para enfraquecer a favorita René Zellweger.
O âncora da ocasião será o comediante Billy Cristal, pela sexta vez convidado a conduzir o espetáculo. Como a desestressada Whoopi Goldberg (mas não como Steve Martin, mais formal), ele deve divertir os colegas e o público com piadas e trocadilhos, do texto ou de improviso. No revezamento entre anúncio e entrega de estatuetas, celebridades como John Travolta, Nicole Kidman, Steven Spielberg, Will Smith, Jim Carrey e Catherine Zeta-Jones, entre dezenas, vão desfilar grifes assinadas por Gucci, Richard Tyler, Armani, Valentino, Prada, Boss e Vera Wang. De qualquer maneira, o astral deve estar bem melhor esta noite, ao contrário do ano passado, quando a recém-iniciada guerra do Iraque ameaçou inclusive a realização da festa. Está de volta o emblemático tapete vermelho, retirado em 2003. E na trilha musical, as canções concorrentes ficam por conta do onipresente Sting, Annie Lennox e Evis Costello, entre outros.
Uma decisão que vem causando protestos: a intenção da rede de televisão ABC de transmitir a cerimônia utilizando um sistema que vai permitir atrasar em cinco segundos as imagens e o áudio. A idéia é evitar que se repitam episódios como a exibição do seio de Janet Jackson ao vivo na final do Super Bowl. Mas o presidente da Academia de Hollywood, Frank Pierson, até ontem brigava contra o que acredita ser um perigoso precedente para que se utilize a censura contra, por exemplo, manifestações de caráter político como o discurso anti-Bush feito por Michael Moore, ganhador do Oscar de documentário ano passado.

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