Os atores de cinema vivem às voltas com a competição. Oscar, Globo de Ouro, BAFTA, Goyas, festivais diversos e outros galardões da fama. Mas é bom que se apressem na corrida pelas estatuetas. Porque seu tempo pode estar chegando ao fim, e os atores como os conhecemos, de carne, osso e excentricidades agregadas podem muito em breve deixar de ser necessários. Em seu lugar, seres virtuais, produtos perfeitos criados pela informática para um cinema, de resto, já sinalizando para o digital em futuro não muito distante.
No papel de um diretor de cinema, desesperado com as excentricidades de sua delirante e desaparecida atriz principal, Al Pacino pergunta a si mesmo numa das cenas emblemáticas de ''S1m0ne'' (''Simulation One''): ''E quem precisa de atores?'' Neste curioso filme dirigido por Andrew Nichol roteirista de ''O Show de Truman'' e diretor de ''Gattaca'', portanto alguém à vontade com o tema , o personagem decide então substituir a estrela por uma atriz gerada por computador, desenhada conforme seus desejos, reunindo o melhor de Audrey Hepburn, Sofia Loren, Grace Kelly e Greta Garbo. Uma espécie de mulher-Frankenstein que, ao contrário de suas colegas de carne e osso, não engordará, não envelhecerá, não terá agente, nem uma corte de bajuladores e nem delírios megalômanos.
Outros personagens virtuais têm saído, com mais ou menos credibilidade, das mesas de CGI (computer generated images imagens geradas por computador). O elfo doméstico Dobby, de ''Harry Potter'', é outro exemplo impressionante. Também Stuart Little. E a turma de monstros de ''Homens de Negro''. Mas sem qualquer dúvida, o mais inquietante é o Gollum de ''Senhor dos Anéis''. O diretor neozelandês utilizou tudo o que estava a seu alcance para a configuração visual do mitológico personagem criado por J.R.R. Tolkien, e que deixou absolutamente perplexo o espectador diante da complexidade física e psicológica deste inesquecível vilão. O impacto foi tal que uma unanimidade se impôs: ano passado, a Academia de Hollywood deveria ter nominado o Gollum de ''As Duas Torres'' para a categoria de melhor coadjuvante. Ou, na pior das hipóteses, e pelo receio de provocar a ira de colegas reais alguns bem menos talentosos, diga-se a bem da verdade virtual , deveria ter instituído uma nova categoria, a de melhor criatura.
De olhar penetrante, este ser, que um dia foi hobbit e por 500 anos manteve o anel em seu poder, se movimenta agora rastejante, com seu corpo descarnado e ossos à mostra, ameaça constante a um exaurido Frodo. Para chegar a esta aparência e a esta personalidade, foi necessária uma ótima dose de tecnologia, mas também outro tanto de fator humano: a presença do ator inglês Andy Serkis, submetido a um processo especial para dar forma àquilo (ou àquele...) que se vê como Gollum, que é como se fosse um E.T. bem mais terrestre. Em ''O Retorno do Rei'', Serkis foi mantido como a base humana a partir da qual o computador captou gestos para reproduzi-los em formato digital.
''Quis que um ator determinasse o personagem'', diz Peter Jackson. E assim foi. Gollum, elaborado pela companhia de efeitos especiais do diretor, a WETA, a empresa do diretor. Os animadores usaram os movimentos e as expressões faciais de Andy Serkis para então, através de um processo digital, o Gollum surgisse na tela com toda a sua complexidade e humanidade. Serkis foi filmado durante 18 meses, em três partes: duas com os atores Elijah ''Frodo'' Wood e Sean ''Sam'' Astin, e a terceira, sozinho, vestindo um traje azul com sensores que permitiam aos animadores captar cada um de seus movimentos. Segundo o supervisor de efeitos especiais, Eric Sainden, há 300 músculos diferentes no Gollum. O personagem tem um esqueleto e um sistema muscular perfeitos, e isto se transfere para sua pele. A voz que anima o Gollum, claro, é a de Serkis, que soa como se fosse um gato acuado por um cão.

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