CINEMA - No fundo do poço, em VHS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de março de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
A síndrome do horror ''made in Japan'' se instala em Hollywood. E não apenas em filmes adaptados e dirigidos por americanos, ou estrangeiros como o nosso Walter Salles (''Dark Water'', com estréia mundial em agosto), mas com importação direta: especialmente convidados, os originais Takashi Shimizu e Hideo Nakata refizeram nos Estados Unidos seus respectivos sucessos, ''O Grito'' e ''O Chamado 2'', este último entrando hoje no Brasil em pré-lançamento nacional (veja a programação nesta).
''O Chamado 2'' parte exatamente de onde parou ''O Chamado'', mas nada tem a ver com aquela abordagem sutil e hipnótica da primeira parte, aquele surpreendente enfoque metafórico sobre nossa sociedade obscenamente assediada pela mediatização sem controle. Seis meses são passados desde os trágicos acontecimentos - você sabe, a história daquele telefonema (o título não deveria ser ''A Chamada''?!) e daquele videocassete amaldiçoado que não deve ser assistido, sob pena da pessoa morrer ao fim de uma semana.
A repórter Rachel (Naomi Watts) e seu filho Aidan (David Dorfman) trocam Seattle por uma cidade costeira no Oregon, esperando se desembaraçar do espírito maligno que no filme de abertura não deu tréguas, o vingativo fantasma da garota Sâmara, que morreu no fundo de um poço, assassinada pela mãe. Mas quando Hollywood quer, os fantasmas são tenazes e determinados. Desta vez Sâmara está de volta, e seu espectro se apossa do corpo do garoto na banheira. De novo ninguém aprende as lições: nesta trama, telefone não se atende, vídeo não se assiste e a partir de agora, banho só de ducha.
Para desespero dos aplicados amantes da cartilha do horror contemporâneo, cumpre comunicar que ''O Chamado 2'' atua menos no terreno do frisson techno do que nos limites do melodrama fantástico. O que se assiste antes de tudo é um autêntico drama familiar. Mas isto não chega a ser um elogio, porque com família americana, principalmente disfuncional, a dramaturgia oriental não funciona. Deverá a mãe de família Rachel liquidar com as próprias mãos o filho possuído, afim de livrá-lo do espírito maligno? Ou ela mesmo terá que se sacrificar? Eis o que se pode chamar de dilema ocidental sem grande instigação, opção mais rasteira na linha mimética de ''Exorcistas'' e ''Profecias''. Falta aqui a credibilidade que um entorno nipônico com certeza forneceria - quem viu qualquer um dos ''Ringu'' (o ''Chamado'', no original) ou ''O Grito'' (Guon) sabe do que estou falando. A prova está em breve chegando às locadoras.
Se em sua terra natal o diretor Hideo Nakata fez por merecer a fama de criador dos ''filmes asiáticos de fantasmas'', em Hollywood parece ter incorporado muito mais matéria, deixando a espiritualidade de lado. Naomi Watts é pau para toda obra, e muitas vezes consegue até estar num bom filme que não existe. Para anotar: há uma sequência terrivelmente ruim, envolvendo um veado hostil na rodovia. Vocês já imaginaram como deve ser difícil fazer um veado parecer ameaçador? Não é difícil, é impossível. As cenas com ''o ataque do veado raivoso'' é uma das mais involuntariamente engraçadas deste início de temporada.


