Curitiba - Cafundó é o fundo do mundo. ''É logo ali, mas não se vê'', conforme explica um dos personagens do filme ''Cafundó''. O verbete dá nome ao primeiro longa-metragem dirigido pelo ator e diretor de teatro Paulo Betti. O longa tem uma estreita ligação com o Paraná. Foi aqui que o diretor veio negociar patrocínio, antes mesmo do projeto sair do papel e é também sediada no Estado a produtora do filme, Laz Audiovisual. Cafundó, que tem Lázaro Ramos como ator principal, tem 80% do elenco formado por parananeses e grande parte do longa-metragem foi filmado na Lapa, a 70 quilômetros de Curitiba. Agora, o ator volta ao Estado para acompanhar a estréia do filme, em cartaz em três salas da capital.
Com distribuição de apenas oito cópias, o filme já conquistou até o momento 25 mil espectadores e 17 prêmios em festivais nacionais e internacionais, entre eles o 14º Pan African Film Festival, de Los Angeles. ''O que é muito bom'', considera o diretor. O filme teve orçamento de R$ 4,5 milhões, metade desse montante gastos em ''tributos'', conforme explicou Rubens Gennaro, da Laz Audiovisual, durante entrevista de Betti à Folha. O diretor salienta. ''Eu acho que nosso filme parece que custou muito mais, porque é um filme grande pra c... Estamos absolutamente tranquilos com relação aos custos do filme''.
Betti vai voltar ao Paraná no ano que vem para outra empreeitada cinematográfica, desta vez utilizando apenas 20% do orçamento de Cafundó. Ele vai filmar novamente na Lapa, a história do espetáculo ''Canções Brasileiras'', que resgata músicas de compositores nacionais. Até lá, participa das estréias de Cafundó, que até o final do ano deve ocupar pelo menos uma sala das principais capitais do País.
O filme conta a história do ex-escravo João de Camargo, que viveu em Sorocaba (SP), cidade natal de Betti, entre o final do século 19 e começo do século 20 e se tornou um dos principais líderes religiosos da região. Em entrevista à Folha, o ator conta o que esteve por trás da história do filme, desde quando surgiu a idéia, há 15 anos, até a conquista do patrocínio e a estréia. Acompanhe.
Você veio ao Paraná há mais ou menos uns dez anos para pedir patrocínio para esse filme (Cafundó) e só agora ele fica pronto... Você considera longo esse processo ou é assim mesmo que as coisas acontecem?
É assim mesmo que as coisas acontecem. Eu desejaria que tudo fosse diferente, mas não é. Eu sou ator, faço cinema, televisão, teatro, dirijo peças. O filme estava junto com essas coisas e talvez seja isso que tenha feito o tempo ser mais longo. Se eu fizesse uma coisa só talvez fosse mais rápido. O projeto demorou também por que o cinema é longo mesmo, mas nesse caso foi dobrado justamente por eu ter que dividi-lo com outras coisas.
O projeto começou efetivamente quando?
Em 1991. Foi nessa época que a gente decidiu: ''agora vai ser um filme''. Aí começa todo o processo, vamos fazer a pasta, conversar sobre o roteiro... Eu me lembro que eu trabalhei em cima de duzentos itens que eu queria que estivessem no filme, mas muita coisa a gente tirou. Tinha uma festa de São João que não entrou, por exemplo. Mas o principal é pegar a história do filme e saber o que você quer contar.
Você considera essa fase de pré-produção, de conseguir patrocínio, a fase mais difícil nessa tua primeira empreeitada como diretor?
Não. Não tem fase fácil. A distribuição também é uma fase muito difícil. Mas eu acho que toda etapa está relacionada com aquela frase do Guimarães Rosa: ''O real não está nem na saída nem na chegada, mas sim na travessia''. Eu já sabia disso quando eu ia falar do filme pra pedir patrocínio, quando eu falei do filme pra você naquela época, por exemplo. O filme é um conjunto de fases, das entrevista até a repercussão.
E como foi esse processo aqui no Paraná. Além da produção ser daqui, o filme foi filmado na Lapa com muitos atores paranaenses...
Olha, no cinema, se um ator não for bom ele derruba o filme. O cinema tem uma chave que é diferente do teatro, que se chama suspensão da incredibilidade. No teatro, os atores falam : ''Estamos em Paris''. Aí o público fala: ''Oba, vamos lá''. O público acredita, mas no cinema não. Se um ator fala uma frase errada no filme, tira a credibilidade do espectador. Nós não temos isso no nosso filme porque Cafundó só tem ator fera e 80% dessas feras são do Paraná. O Paraná é um celeiro de bons atores.
E já tem planos para um novo filme por aqui?
Sim. Vou filmar a peça ''Canções Brasileiras'', no Teatro da Lapa. É uma peça que eu trouxe para Curitiba há um mês e agora decidimos fazer um longa com o mesmo elenco. Vamos filmar no começo do ano que vem, com orçamento previsto de R$ 900 mil. O orçamento é mais baixo porque vou filmar num lugar só e também já consegui uma fazenda para hospedar o elenco. Eu acho que a gente tem que aprender fazer filmes mais baratos, mas o Cafundó (orçamento de R$ 4,5 milhões) não teve jeito porque é um filme muito grande. No final, quem ficar quatro minutos a mais vendo os letreiros vai ter uma surpresa com a quantidade de gente que participou do filme. Tem até uma música inédita do Gilberto Gil, que fez uma participação na trilha sonora de André Abujamra.
Falando em Gilberto Gil, vamos encerrar falando de política. Nessa próxima gestão do Lula você gostaria que o ministro da Cultura ficasse no cargo?
Eu gostaria muito que ele ficasse. Acho que o trabalho dele como ministro foi muito bom. O Gil e o Antonio Grassi, que é meu amigo, inclusive, meu sócio e parceiro, fizeram um trabalho maravilhoso.
E o que falta pra fazer?
Falta muita coisa. Nós temos uma carência muito grande. Estamos muito atrasados. A gente faz o que pode, mas o Brasil precisa de muita coisa. Acho que o nosso problema básico é a distribuição de renda.

Serviço:
- Cafundó, com Lázaro Ramos, Leonna Cavalli e Leandro Firmino. Direção de Paulo Betti. Em cartaz em Curitiba no Cinemark Barigui 4; Cinesystem Portão e Unibanco Artplex Crystal.

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