No muito seleto Olimpo de ganhadores da Palma de Ouro no Festival de Cannes, há ainda um reduzido grupo daqueles que levaram o prêmio duas vezes - o americano Francis Coppola, o bósnio Emir Kusturica, os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, o sueco Billie August. E o japonês Shoei Imamura, que morreu ontem num hospital em Tóquio, aos 79 anos, vitimado por um câncer. Sua última participação oficial em Cannes foi em 2001, com ''Água Fria Sobre Uma Ponte Vermelha'', surpreendente conto erótico.
Ao lado de Kurosawa, Imamura foi sem contestação um dos grandes cineastas japoneses do pós guerra. Ele recebeu pela primeira vez o prêmio máximo do certame francês em 1983 por ''A Balada de Narayama'', história de um pequeno povoado que sobrevive aos rigores das intempéries e à escassez de alimentos abandonando à morte as pessoas com mais de 70 anos aos pés do monte Narayama. Em 1997 repetiu o triunfo com ''A Enguia'', sobre a relação entre um homicida em liberdade condicional e uma mulher que trabalha para ele numa barbearia. Os dois títulos podem ser encontrados em vídeo.
Imamura começou a trabalhar em 1951 nos estúdios Shochiku, onde foi assistente do legendário Yasujiro Ozu, a quem criticava frequentemente por anular a alma dos atores com seu estilo frio de direção. Anos mais tarde foi contratado pela Nikkatsu, produtora famosa por histórias pornô light. Imamura refletiu sobre este gênero com a comédia ''Os Pornógrafos'', na qual descreve as aventuras de um diretor deste tipo de filme, ilegal no Japão daquela época.
Nos anos 1960, Imamura fundou sua própria produtora, e até há pouco tempo foi professor da Escola de Cinema de Yokohama. Em 1989, com ''Chuva Negra'', rodado em preto e branco, ele ousou mostrar as sequelas da bomba de Hiroshima através do destino trágico de algumas pessoas.
Ao longo de uma filmografia de não mais que 20 títulos em quase 50 anos de uma carreira tão importante quanto às de Kurosawa e Kenji Mizoguchi, Imamura sempre se destacou pelo humanismo e pelo não conformismo, atento às contradições de uma sociedade que transformava indiscriminadamente a tradição em consumismo. Mas seria injusto reduzir a arte do diretor aos limites do filme de tese. O cineasta também era capaz de produzir um humor desconcertante, com demonstrou em ''A Enguia''.

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