O exílio em Cuba foi, durante muito tempo, um dos períodos mais obscuros na trajetória do cineasta Glauber Rocha (1939-1981). Pouco se sabia de sua passagem pela ilha, entre 1971 e 1972, época de grande convulsão política na América Latina, com o Brasil vivendo sob a ditadura militar.
Três décadas depois, coube ao filho do diretor, Eryk Rocha, resgatar a memória daquele momento histórico realizando o documentário em longa-metragem ''Rocha que Voa''. O filme, lançado em 2002, é a grande atração de hoje da 8 Mostra Londrina de Cinema cuja programação destaca ainda três curtas-metragens em 35 mm. Os quatro títulos serão exibidos a partir de 21 horas na sala 2 do Multiplex Catuaí.
Um dos curtas, ''Medula'', é também de autoria de Eryk, integrando uma trilogia de curtas concebida em parceria com o artista plástico carioca Tunga. O filme é uma ficção de 15 minutos em que um casal tem uma surpresa enquanto se arrumam para uma festa. Já ''Schenberguianas'', dirigido por Sergio Oliveira e Willian Cubits, reúne histórias inspiradas na obra-pensamento do cientista Mario Schenberg, morto em 1990. O filme inclui depoimentos de personalidades como Gilberto Gil, Jorge Mautner e José Roberto Aguillar.
A animação ''Historietas Assombradas (para crianças mal-criadas)'', por sua vez, é dirigida pelo santista Victor Hugo Borges. Mostra um divertido embate entre duas gerações na qual uma avó (dublada por Miriam Muniz) conta histórias para a netinha antes de dormir levando o desafio de tornar estas pequenas narrativas ainda mais intrigantes e fabulosas. O filme foi vencedor de vários prêmios, entre eles o de melhor curta eleito pelo público no Festival do Rio 2005 e o de melhor curta no Goiânia Mostra Curtas 2005.
A Mostra de filmes 35 mm de hoje termina com a exibição de ''Rocha que Voa'', estréia cinematográfica de Eryk, herdeiro de um sobrenome abençoado pelos críiticos e cinéfilos. Com 94 minutos de duração, o documentário inclui duas entrevistas de Glauber Rocha em Cuba, eixo em torno do qual giram os temas e depoimentos colhidos entre cineastas (Pastor Vega, Tomas Gutierrez Alea e Fernando Birri) e anônimos locais.
A partir das idéias do diretor brasileiro, o filme reflete as inquietações do período e toda a efervescência político-cultural protagonizada pelos intelectuais latino-americanos numa época em que arte e militância andavam de mãos dadas. O cinema, no caso, surge como o veículo capaz de catalisar os sonhos e utopias de um continente maltratado por desigulades sociais e golpes militares.
Em tais circunstâncias, a genialidade e as provocações de Glauber despontavam com guias para um futuro redentor. A maior parte das imagens foi registrada em preto-e-branco. A montagem durou oito meses, fase em que as imagens foram tratadas em computador, com alteração de cores e texturas das filmagens. Estas foram feitas em 16 mm, em vídeo e até em super 8. Também serviram de material fragmentos de filmes como ''Deus e o Diabo na Terra do Sol'', ''Câncer'' e ''O Leão de Sete Cabeças'' - todos citados pelos entrevistados.
Eryk tinha 3 anos de idade quando Glauber morreu. Seu filme de estréia trava um diálogo crítico com a obra de seu pai e com a geração que ele representou.

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