Em março, Mel Brooks fez uma de suas últimas aparições públicas. Foi em Madri, participando do tour promocional do musical ''Os Produtores'', adaptado do show da Broadway inspirado pela comédia ''Primavera para Hitler'', que ele escreveu e dirigiu em 1969, faturando, logo na estréia, o Oscar de melhor roteiro original. De alguma forma, a vida continua.
Em dezembro, Brooks não havia participado, em Nova York, do junkett - aqueles encontros que as distribuidoras americanas promovem com jornalistas de todo o mundo - do mesmo filme. Ainda estava muito deprimido pela morte da mulher, com quem havia vivido nos últimos 41 anos, Anne Bancroft.
Quando ambos se uniram, você podia jurar que aquele era o típico casamento hollywoodiano que não ia durar. Anne, uma atriz de temperamento sofisticado, que havia recebido o Oscar de 1962, por ''O Milagre de Anne Sullivan'', de Arthur Penn, bem antes de ser imortalizada como a Mrs. Robinson de ''A Primeira Noite de Um Homem'', de Mike Nichols, não parecia ter muito em comum com Brooks, um tipo mais grosseiro e cujo humor não era dos mais finos. Bem, podia não ser fino, mas com certeza era (é)inteligente e foi, com certeza, o que os uniu.
Havia mais. Anne, como Mrs. Robinson, projetou uma imagem de sensualidade ''prática'' que permanece emblemática no cinema americano e o sexo vira elefantíase nas grandes comédias de Mel Brooks. Foram sempre muito francos e honestos na abordagem do assunto tabu. Bastava vê-los, em aparições públicas ou em filmes como ''Sou ou não Sou'', que Brooks produziu - e foi adaptado do clássico ''Ser ou não Ser'', de Ernst Lubitsch -, para perceber que se completavam, como corpo e mente.
Mel Brooks completa hoje 80 anos. Com Woody Allen, ele forma a dupla de representantes mais ilustres do humor judaico de Nova York. Allen raramente tem saído de Manhattan - foi a Londres para ''Match Point''; irá a Barcelona para o próximo filme -, falando preferencialmente de um segmento sofisticado e intelectualizado da cosmopolita sociedade nova-iorquina.
Brooks não tem ficado circunscrito a essa vizinhança e o seu estilo de humor o leva a parodiar gêneros clássicos de Hollywood, muitas vezes com uma grosseria que talvez fizesse corar os personagens de Woody Allen.
A flatulência dos caubóis de ''Banzé no Oeste'', que comem feijão demais, é apenas uma amostra desse humor que não teme ser fácil para ser eficiente. Todos os recursos são válidos nas comédias de Brooks, que não se impõe limites.
Mas essa facilidade carrega um paradoxo. Ela traz em si mesma uma exigência. Pois o humor de Brooks está a serviço de uma idéia de cinema e de sociedade.
Ex-gagman do comediante Sid Caesar, Brooks chegou tardiamente ao cinema. Já havia ultrapassado os 40 anos e desenvolvido extensa atividade em ''night clubs'' e na televisão, quase sempre criando esquetes que parodiavam filmes, gêneros ou astros e estrelas famosos. Seus primeiros filmes satirizam os códigos de gêneros clássicos - no mesmo ano, 1974, ele conseguiu fazer ''Banzé no Oeste'' e sua obra-prima, ''O Jovem Frankenstein'', pastichando o western e o cinema de terror, respectivamente.
Em ''A Última Loucura'' de Mel Brooks, o alvo foi o burlesco e, em ''Alta Ansiedade'', o suspense, segundo Alfred Hitchcock. A partir de ''A História do Mundo - Parte 1'' (não houve Parte 2), em 1981, o ator e diretor começa a pastichar-se.
Na linha de ''Primavera para Hitler'', em que o Fuhrer vira tema de opereta, a ''Inquisição'' transforma-se em musical e Moisés quebra as tábuas da lei por inabilidade. A grande fase de Mel Brooks pode ter durado pouco, mas foram anos (e filmes) que se podem definir como gloriosos.

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