CINEMA - Mais ação, menos reflexão
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de agosto de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Apesar de ampla divulgação no maior complexo de salas da cidade, o lançamento de ''A Ilha'' em Londrina terminou minimizado, com uma única cópia do filme entrando apenas no Royal Plaza. Esta estréia local em parte esvaziada confirma a questão aqui colocada ontem, quanto à ''indisposições'' cíclicas entre distribuidores (no caso a Warner Bros.) e exibidores. Os detalhes não são conhecidos, mas a opção da WB pela Empresa Arco-Iris/cines Royal Plaza como lançadores do filme, e não pela Cinematográfica Araújo, do Catuaí, deve ter lá suas razões. Ao público agora cabe somente buscar o endereço do centro.
Daqui a alguns anos, neste mesmo século 21, logo ali, cerca de 2025. Um residente num lugar utópico vive, como todos, num lugar controlado. Sua oportunidade de ir até ''a ilha'', o derradeiro local não contaminado do planeta, é única. O problema? É tudo mentira, e a realidade que ele acaba de conhecer é terrível: ele é somente o produto de uma colheita, um ser clonado que vive em um complexo que mantém a utopia, uma granja de clones. Uma granja de órgãos para outros humanos.
Uma boa premissa. Os limites morais e o manejo de clones, em um contexto de ricaços que podem pagar pelo melhor seguro-saúde, ou por uma réplica ''limpa'' se alguma coisa falha, ou ainda se necessitam de partes sadias do corpo, partes não afetadas. Este argumento de forte viés moral e social, uma vez trasladado aos limites ''criativos'' de um diretor com o perfil de Michael Bay (''A Rocha'', ''Armageddon'', ''Pearl Harbor'') obviamente não poderia poderia prosseguir nesta linha. De modo que a ação, as explosões, os carros espetacularmente destruídos e as perseguições impossíveis vão invadir a tela a qualquer momento. Naquele momento exato, aliás, em que um par de clones sexys e em trajes imaculados se dê conta de seu mundo é totalmente utópico, e não somente as cópias mencionadas, matérias-primas da melhor qualidade possível.
Quem espera um cinema profundo a partir desta realidade já palpável que é clonagem em seres vivos, melhor entrar outras salas nas imediações. Sem dúvida é uma boa história, mas que se desvia de sua base de meia ficção científica (a outra metade já se sabe que é real) e se rende aos imperativos da indústria. Duas observações condicionais necessárias: se a Academia instituir troféu para o filme mais barulhento ano, a estatueta já tem dono em 2005; e se alguém resolver clonar alguém, Scarlett Johansson seria uma escolha impecável.


