CINEMA - Livro e filme em harmonia
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de outubro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
As manipulações da indústria farmacêutica, não apenas as químicas, de fórmulas, mas aquelas políticas que entre os componentes se encontram a ambição desmedida, a avareza, os abusos e a imoralidade. Este é o núcleo de ''The Constant Gardener'', novela de John Le Carré traduzida no Brasil com o título também adotado pelo filme, ''O Fiel Jardineiro'', e editada pela Record. Mas esta obra do criador da espionagem literária moderna, best-seller onde quer que tenha sido publicada, sinaliza sem piedade para uma outra denúncia grave na mesma medida: Le Carré deixa claro que a falta de responsabilidade coletiva abre campo a que certas indústrias se aproveitem inescrupulosamente de povos inteiros em busca de grandes benefícios. Quando pensou numa trama, inicialmente pensou na atuação de uma multinacional do petróleo na Nigéria. Mas depois se decidiu por abrir fogo contra as ambiciosas corporações farmacêuticas que, na contramão de propósitos, colocam em risco a saúde dos já miseráveis habitantes do Terceiro Mundo.
Quem leu o livro sabia de suas potencialidades cinematográficas, de resto uma característica de Le Carré, aliás David Cornwell, nome real deste britânico que em breve será novamente notícia quando vier à luz sua investida contra George W.Bush. Escrito com a fluência e o ritmo de um bom roteiro, bem desenvolvido e bem resolvido apesar de suas intrincadas alternâncias, ''O Fiel Jardineiro'' cataloga críticas ásperas à avareza de uma multinacional capaz de vender um perigoso medicamento contra a tuberculose que ainda não está inteiramente aprovado em laboratório.
Quanto à adaptação, o diretor Fernando Meirelles disse na coletiva em Veneza que, antes das filmagens, ele, o produtor Simon Williams, o ator Ralph Fiennes e John Le Carré jantaram juntos em Londres. Tudo muito cordial, tudo muito civilizado e consensual. O escritor, porém, foi educadamente enfático no sentido de que as prováveis complexidades da trama, que certamente desaparecem no processo de transposição de linguagens, não anulassem o fundo político, o traço psicológico dos personagens e o peso das relações. Segundo Meirelles, pronto o filme, John Le Carré foi dos primeiros a ver. E aprovou. Nada melhor para endossar uma obra cinematográfica do que a cumplicidade do autor do texto-matriz.


