Aos setenta anos, Woody Allen abriu com 'Match Point - Ponto Final' uma nova frente exploratória em seu cinema. Mudou-se de Nova York para Londres, trocou o jazz pela ópera, se absteve de incluir uma única anedota, não se escalou para o elenco e também não convocou seu habitual alter-ego, e até modificou sua técnica narrativa, a ponto de deixá-la quase irreconhecível. Mas então não é mesmo Woody Allen, já que não parece um filme de Woody Allen, alguém poderá concluir. Calma: os fãs de carteirinha não devem se assustar e os detratores recolham as garras. O homem está lá, mais inteiro do que nunca, surpreendentemente novo a falar das coisas da vida com as quais tem enorme familiaridade.
Esta estratégia formal é provocadora e enganosa. No fundo de 'Match Point' sobrevive como sempre aquele mesmo olhar triste e sábio de um artista que elegeu o humor como defesa diante da angústia, e cuja enorme admiração pelo drama o levou a praticá-lo em raras ocasiões, nem sempre com resultados amplamente satisfatórios ('Interiores', 'A Outra', 'Setembro'). Nesta direção, 'Match Point' é o melhor de seus dramas, além do mais sustentado por uma base policial e até com alguns matizes hitchcokianos - o que está levando a adesão de um público muito mais amplo do que seus incondicionais seguidores de todas as horas. Quem tiver dados e memória aguçada também poderá sacar daqui doses de cinismo e ceticismo à maneira da velha e ladina raposa do cinema francês, Claude Chabrol.
Fica claro desde logo que Allen se atreveu a romper com o templo neurótico de Manhattan e de quebra ainda deixou de lado as habituais referencias ao judaísmo e à psicanálise. 'Match Point' é, então, a obra menos atada a seu estilo, onde mais se desapega de seus usos e costumes. Mas sem que com isso contradiga seu próprio mundo. Pelo contrário. O filme, pouca coisa além de duas horas de tensa dramaturgia de suspense, erotismo, amor, ciúme e sangue, poderá ser curtido com grande prazer pelo público menos acostumado às idiossincrasias do diretor. E por seus fiéis seguidores como uma magnífica variação de sua obra prima e clássica 'Crimes e Pecados', aquela da qual mais se aproxima.
Quanto menos o espectador conhecer do argumento de 'Match Point' antes de entrar no cinema será muito melhor. A trama tem suas complexidades e mais de uma reviravolta. Mas uma síntese seria mais ou menos esta: o jovem irlandês Chris Wilton (Jonathan Rhys-Meyers), professor de tênis, sem qualquer pedigree, chega a Londres e inicia sua escalada social na feira de vaidades do entorno aristocrático. Estrategicamente modesto e encantador, ele seduz garota da alta roda (Emily Mortimer) e junto toda a família dela.
Mas durante sua calculada escalada social Chris mantém um caso cada vez mais intenso com Nola Rice, também sem casta, audaciosa, sensual, fogosa americana aspirante à atriz, interpretada com maestria por Scarlett Johansson, a turista acidental de 'Encontros e Desencontros'. A moça, a propósito, é noiva de seu amigo e agora cunhado Tom (Mattew Goode).
Em 'Match Point' o crescendo é constante, gradual, preciso. O andamento se faz mais firme e enérgico à medida que cresce a tensão e esta se manifesta sobretudo em terreno pouco frequentado por Allen: o da carga erótica, para a qual tanto contribui a explosiva voluptuosidade de Scarlett Jahansson como a combustão química dela com Rhys-Meyers. E quem está de volta, assombrando beneficamente o relato, é o espectro de Dostoievski, velho comparsa de Allen em sua elucubrações mais amargas e agnósticas. Se em 'Crimes e Pecados' havia a presença do olhar de Deus, neste não há nenhum olhar externo, à exceção da polícia - grosseiro e míope, como em Hitchcock.
Uma bola de tênis, na cena inicial, se eleva depois de ter roçado na rede e fica congelada no ar, equidistante dos dois lados da quadra, podendo tanto cair de um como do outro lado. A partir desta metáfora, Woody Allen está chamando a atenção sobre a incidência da sorte ou do azar na vida das pessoas. Ele mesmo andou dizendo este era o tema de 'Match Point'. Mas será mesmo? Talvez nem o próprio diretor acredite nisto. Ao contrário, o tema parece o da impossibilidade de que o golpe de sorte, ou o de desgraça, seja capaz de transformar um destino, ou de modificar radicalmente a prisão que cada um escolheu ou lhe foi predestinada. E se Allen acreditasse realmente na sorte, seria um otimista. Nada mais distante dele.
Só mesmo uma cabeça tão luminosa seria capaz de uma guinada musical assim radicalizante. Agora os comentários da trilha sonora já não estão a cargo de hits do jazz da década de trinta, mas de famosas árias de óperas - Verdi, Rossini, Donizetti - nas velhas e chiadas gravações do lendário Enrico Caruso, funcionando como anotações irônicas sobre o comportamento dos personagens.

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