Lançado com sucesso na sempre prestigiosa Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2007, ''A Via Láctea'' está a partir de hoje na sala alternativa da cidade (confira programação na página 2). É o segundo longa metragem da diretora Lina Chamie, formada em música nos EUA e com experiência em cinema na Universidade de Nova York. Seu filme de fato corresponde a este currículo, há formas e sons, há imagens e músicas que dialogam intensamente a serviço de uma narrativa original e elegante, um convite irrecusável para que o espectador descubra de que matéria é feita a real diversidade no quadro hoje muito saudável e irrequieto do cinema brasileiro.
Heitor (Marco Ricca) é o escritor e professor de literatura quarentão, tímido e em plena crise afetiva e profissional. Há três anos namora a expansiva Julia (Alice Braga), estudante de veterinária e atriz de teatro. O filme, em grande parte ambientado no caótico, paralisante trânsito paulistano, abre com uma briga entre os dois, por telefone. Ele encaminha mal sua mensagem, ela responde com dureza, ele está enciumado, ela acha melhor romper. Mas ele ainda corre para, quem sabe, ''discutir a relação''. E então há o tempo, o trânsito que surge como personagem, a cidade com seu mapa humano e social que se transforma também em personagem, a tentativa do reencontro e a insistência do desencontro.
Simples na aparência, com narrativa que corre sem contratempos à flor da pele, no entanto ''A Via Láctea'' reserva ao espectador atento e cúmplice uma série de inefáveis prazeres entre o sensorial e o cerebral. O roteiro criativo oferece diversos níveis de leitura - e este parece seu maior desafio: não ser somente aquilo que aparenta, isto é, uma trágica história de amor entre um homem e uma mulher, mas um instigante passeio pela via láctea da vida de nós seres humanos.
''A Via Láctea'' é filme aparentemente desestruturado porque se nutre essencialmente dos desencontros, e trabalha uma aparência de caos com uma linguagem que não abre mão da modernidade. A desordem urbana serve bem como metáfora da desordem afetiva, que muitas vezes desaba sem motivo aparente e se torna muito difícil retirar dos escombros. Nestes seus fragmentos do discurso amoroso, Lina Chamie fez um dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos.

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