CINEMA - Filmes que garantem o susto
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de julho de 2016
Célia Musilli<br>Reportagem Local 
Os truques não são novos, cadeiras que voam, crucifixos invertidos, personagens com vozes demoníacas. Mas o fato é que a fórmula clássica dos filmes de terror ainda atrai multidões aos cinemas. "Invocação do Mal 2", do diretor James Wan, atualmente em cartaz, está dobrando semanas de exibição e tem nos espectadores jovens um público cativo. Só no Brasil foram 1 milhão de espectadores na semana de estreia, segundo informações dos sites especializados. Sinal que não é necessário um filme bem acabado ou muito original para garantir bons sustos. Na verdade, o público jovem que se interessa por isso quase sempre mantém a preferência pelo gênero em nome da adrenalina misturada ao humor que pode suscitar ataques de riso nas cenas mais fortes ou quando um engraçadinho grita na sala escura: "Meu Deus, tô indo à igreja!" Ou um manjadíssimo: "Sai, capeta!"
Foi isso que o estudante Luiz Eduardo Dorigo, 17 anos, ouviu num cinema de Londrina quando foi assistir ao filme. Ao contar a experiência aos amigos numa lanchonete no centro da cidade, ele chamou a atenção pela irreverência do relato a um grupo de mais quatro adolescentes, quase todos fãs de filmes de terror. Quando propus uma entrevista porque os garotos pareciam muito bem-humorados - dois se levantaram da mesa como se vissem a cruz invertida e três permaneceram para falar de quantos filmes de terror é feita a adrenalina que todos dizem sentir quando se reúnem para ir ao cinema ou assistir aos filmes no Netflix.
Daniel Luiz Cechinel, 16 anos,também estudante, conta que assistiu seis vezes a outro filme dirigido por James Wan: "Sobrenatural" (2011). A pior ou, pensando bem, a pior cena do filme, segundo ele, é "quando aparece o diabo escondido atrás de um homem e um médium o vê." Perguntado se acredita que essas aparições possam acontecer na vida real, ele diz que sim e confessa que, às vezes, "nem consegue dormir direito depois de assistir a um filme desses." Ao mesmo tempo que, ao pensar nos detalhes, "cai na risada", coisa comum quando se depara com o terror trash que parece ter um grande apelo entre jovens. Algo assim como se tudo o que fosse muito ruim parecesse bom.
CONEXÕES
A crença que o sobrenatural pode ocorrer na realidade é unânime no grupo que, em menos de uma hora de conversa, lembrou-se das piores/melhores cenas de cada filme.
Giullia Sokolowski, 16 anos, a única garota do grupo, lembrou-se de "Annabelle"- 2014/ dirigido por John R.Leonetti - filme cuja principal personagem é "uma boneca maldita" a mesma que, por sinal, aparece em "Invocação do Mal 2", numa espécie de conexão do terror capaz de mexer com a memória dos que adoram levar sustos no cinema. Como se sabe, as associações têm o poder de tornar tudo mais vivo.
O que mais impressiona os espectadores desses filmes é o fato deles serem, supostamente, baseados em fatos reais. "Invocação do Mal 2" é o segundo filme de James Wan inspirado nos investigadores psíquicos Lorraine e Ed Warren, casal da vida real associado ao caso de horror de Amityville, Nova York, local onde aconteceu um assassinato em série nos anos 70.
Os entrevistados conhecem de cor essas histórias e isso pode ser uma demonstração de que sentir medo no cinema tem uma ligação com o medo que todos podemos sentir na realidade, com a vantagem de que no cinema - e na arte em geral - ficcionaliza-se o que seria bem mais impressionante se tomado puramente como fato.
Daniel conta que começou a assistir a filmes de terror aos oito anos e Luiz Eduardo diz que mesmo quando assistiu a "Toy History" na infância ficou impressionado, tanto que ganhou um boneco que era réplica do personagem do filme e à noite encostava a porta na hora de dormir pensando se "seria possível o boneco sair andando pelo quarto." Com isso ele criava sua própria fantasia sinistra. Já hoje, ele gosta de assistir a filmes de terror por um motivo especial: "as meninas chegam mais perto quando ficam com medo." E justifica: "Cada um tem suas estratégias."
ADRENALINA
As histórias de terror fazem parte da infância e também da vida adulta de muita gente, dizem alguns especialistas que elas têm a função de treinar o espírito de preservação e sobrevivência. O medo nos leva a um estado psíquico desconhecido, como ressaltou Daniel na entrevista, e isso talvez seja o motivo da atração que tantos cultivam pelo terror.
O fato é que do riso ao medo, filmes como "Invocação do Mal 2" garantem um bom fluxo de adrenalina. Luiz Eduardo conta que o filme provoca o primeiro susto já aos dois minutos de exibição. Ele comparou a sessão a uma espécie de Big Brother do terror, no qual os candidatos vão sendo eliminados: "Em meia hora, muita gente já estava saindo do cinema apavorada."
Na verdade, ninguém sabe se parte da plateia sai do cinema porque o filme é assustador ou porque deixa a desejar e não assusta mais ninguém. O benefício da dúvida decerto é bom para os produtores que investem milhões de dólares neste tipo de entretenimento. Mas no plano das emoções a melhor síntese foi feita por Giullia para quem "a magia do terror reside no fato de sair do senso comum."
Se for mesmo por aí, crucifixos virados, cadeiras que voam e personagens com vozes demoníacas vão continuar fazendo a alegria de muita gente. Estes fenômenos não são comuns na realidade, mas causam a maior sensação quando ocorrem no plano de fantasia dos filmes e livros que há décadas embalam públicos ávidos por emoções que esfriam a barriga, arrepiam os cabelos e fazem a gente espiar algumas cenas pelo vão dos dedos enquanto cobre o rosto nas piores/melhores cenas. Buuu! Boa sessão para quem gosta.


