Difícil contar os pontos mais altos de uma carreira feita de picos de qualidade como a de Ingmar Bergman. Mas com certeza a caixa de DVDs proposta pela Versátil contempla quatro desses grandes momentos do diretor sueco: ''O Sétimo Selo'' (1956), ''Morangos Silvestres'' (1957), ''A Fonte da Donzela'' (1960) e ''Gritos e Sussurros'' (1972). São filmes bastante conhecidos do aficionado, que aparecem em versão restaurada e remasterizada, com o capricho costumeiro das edições da Versátil.
Costuma-se dizer que Bergman é o cineasta do relacionamento humano, em especial da problemática relação amorosa entre homem e mulher, mas às vezes se esquece de que ele pode também ser artista interessado na questão social. É como aparece, por exemplo, em ''O Sétimo Selo'', parábola de origem bíblica que expressa as inquietações européias do pós-guerra, com a ameaça nuclear que surgia do conflito entre as superpotências e deixava a Europa espremida entre os dois. Tudo isso vem numa embalagem de lenda medieval em que a peste leva ao medo e o medo conduz à intolerância. Nessa parábola, o cavaleiro (Max von Sydow) joga xadrez com a morte, sem possibilidade de vitória. Os únicos que se salvam são os membros de uma família de artistas mambembes, como se Bergman dissesse que a arte, afinal, é a única saída possível contra a barbárie. Aliás, nas entrelinhas, ele iria reafirmar essa fé ao longo de sua obra.
Costuma-se também dizer que Bergman, apesar dessa fé na arte, é um cineasta do pessimismo, o que não deixa de ser uma verdade parcial. No entanto, um filme extraordinário como ''Morangos Silvestres'' deixa em aberto a possibilidade de uma redenção. A travessia da Suécia pelo velho professor Isaak Borg (Victor Sjöström) é, no fundo, uma viagem em busca de si mesmo, do que resta de humanidade naquela velha carcaça de egoísmo, ressentimento e auto-suficiência. Borg viaja em companhia da nora, intui que seu filho tornou-se tão árido como ele, dá carona a um casal autodestrutivo (como ele próprio havia sido com a ex-mulher), visita a velha mãe, esse poço de secura etc. Entra em contato com um grupo de jovens e o efeito regenerador da mocidade produz seus efeitos. Grande Bergman, que em momento algum transforma seus personagens em caricaturas ou os simplifica. São todos representantes dos sentimentos contraditórios que cada um leva dentro de si.
Em ''A Fonte da Donzela'', Bergman retorna ao ambiente medieval para contar uma fábula religiosa e humana. Um casal de cristãos manda a filha levar velas a uma igreja da vizinhança e no caminho ela é atacada, estuprada e morta por um grupo de ladrões de cabras. Mais tarde, os assassinos irão pedir abrigo à família da moça. Visualmente soberbo, esse filme é um estudo vigoroso sobre o crime, a vingança e o remorso. Curiosamente, o próprio Bergman não o tinha em grande conta: chamava-o de ''pobre imitação de Kurosawa'', o que, de um lado, releva que um grande artista tem de ser também pouco indulgente consigo mesmo, mas também que Bergman, às vezes, exagerava nessa obrigatória auto-crítica. Em todo caso, a crítica costuma considerar ''A Fonte da Donzela'' laboratório onde Bergman cozinha o novo impulso que o levará a filmes mais depurados da década de 60.
Já ''Gritos e Sussurros'' é de outra época, e uma das obras-primas do cineasta. Filmado em magnífico vermelho, que contrasta com as roupas brancas das personagens, é um drama sobre o egoísmo, mas também uma reflexão sobre a vida e o mistério da morte. Duas irmãs, em companhia de uma serviçal, velam uma terceira que está morrendo de câncer. Não é apenas isso, pois, da maneira como é filmado, ''Gritos e Sussurros'' toca por alguns instantes uma dimensão quase metafísica de coisas que não se podem nomear, como aquela zona indecisa que fica entre a vida e a morte. Poucas vezes o cinema se debruçou, com tanta ambição, sobre a missão de filmar o invisível. Como a grande literatura está tanto no que se lê como nas entrelinhas, o grande cinema também parte do visível para insinuar o que não se pode ver, mas está lá, sensível e latente. Um filme perturbador, em sua beleza extremada.
Curiosamente, depois dele, Bergman partiu para um cinema mais próximo do cotidiano, como ''Cenas de um Casamento'', ou o chekhoviano ''Fanny & Alexander''. ''Gritos e Sussurros'' é um limite, como se o cineasta tivesse tocado um tabu e recuado em seguida porque não podia seguir adiante.

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