CINEMA - Filme resgata histórias do litoral
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sábado, 21 de outubro de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Ariane Porto nasceu em Campinas (SP), mas o litoral paulista era sua segunda casa. Foi lá que ela ouviu as mais diversas histórias de pescadores e moradores locais. Histórias fantásticas de personagens mitológicos ou não, mas que a inspiraram a escrever o roteiro do longa-metragem ''A Ilha do Terrível Rapaterra'', que estreou em circuito nacional na última sexta-feira. Além do roteiro, Ariane também assina a direção do filme, que traz o ator Lima Duarte no papel do vilão Rapaterra.
''A Ilha do Terrível Rapaterra'' conta a história do personagem do título. Um ladrão de terras e poluidor dos mares que tem uma idéia insólita: roubar o único bem que ainda não tem, as histórias do litoral. E quem domina essas histórias é Dona Tude (Arlete Sales), a maior contadora de causos do Brasil. Só que quem também procura Dona Tude é um grupo de crianças que querem levá-la a uma gincana da escola e que, por acaso, descobre o sequestro e resolve resgatar a dona. As crianças são ajudadas por um macaco-prego tagarela (Augusto Pompeu) e um caranguejo com humor descontrolado (Tadeu Melo).
A história, conta a diretora, é uma miscelânea de causos e personagens inventados ou conhecidos por ela durante sua passagem pelo litoral paulista. ''Eu escutava muitas histórias dos caiçaras e desde criança gostava de escrever. Esse roteiro é fruto de tudo isso'', revela. Alguns personagens, como Dona Tude são inspirados na realidade. ''Dona Tude existiu, era uma filha de escravos que viveu em São Sebastião. O fato dela ser contadora de histórias no filme é baseado numa contadora de fato que mora na comunidade e aparece no filme como Dona Druzila'', conta.
O longa foi filmado em 2002, no litoral paulista. Além de atores conhecidos, como Lima Duarte, Arlete Sales e Tadeu Melo, o filme contou com a participação de crianças que moram na região. A maioria nunca tinha ido ao cinema antes. ''Foi uma experiência interessante. Eles foram preparados pela Teresa Aguiar dois meses antes de filmarmos'', revela a diretora. Ela ressalta que não foi um filme fácil, principalmente por causa dos efeitos especiais e das externas. ''Mas acho que nenhum filme é fácil e isso também não deve ser motivo de desistência. Quando a gente quer contar uma história temos que ir em frente'', diz.
Formada em Antropologia, Ariane desenvolve um trabalho cultural voltado ao meio ambiente. Já dirigiu algumas séries para TV, o que a motivou a escrever e dirigir o seu primeiro longa-metragem. Doutoranda em Sociologia pela USP e em Sociologia Urbana na Universidade de Tour (França), a cineasta criou e produziu a série infantil ''Assembléia dos Bichos'', em parceria com o Ministério do Meio Ambiente. Dirigiu trabalhos de ficção com crianças (''Guaiá dos Mares'', 1994), ficção com bonecos (''Assembléia dos Bichos'') e documentários (''Povos do Mar'', série televisiva).
Em 2001, Ariane venceu o Prêmio Estímulo da Secretaria Estadual da Cultura de São Paulo com o roteiro do curta-metragem ''A Mulher e o Mar'' e do Prêmio Flávio Rangel 2005 de Teatro Profissional com o espetáculo ''João Guimarães - Veredas''. Assinou, em 2002, a produção executiva do documentário de longa- metragem ''Vlado, 30 Anos Depois''. A cineasta é diretora geral do Ecocine - Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental e sócia fundadora da Tao Produções.
Até o final do ano''A Ilha do Terrível Rapaterra'' será exibido em festivais de cinema ambiental, mas a diretora avisa que tem intenção de que o filme seja utilizado nas escolas como fonte nos trabalhos educativos para preservar o meio-ambiente. O filme tem 22 cópias para distribuição e a diretora já planeja uma continuação. ''Rapaterra e a Duna de Ouro'' já está com roteiro pronto e confirmação de Lima Duarte, mas ainda não tem prazo para ser filmado. Até lá, quem sabe, a produção afine o restante do elenco e apure efeitos utilizados para dar maior veracidade à trama.


