CINEMA - Filme italiano é recebido com vaias
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terça-feira, 06 de setembro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza, especial para a Folha 2 
Não é segredo que a afeição cinéfila maior dos italianos é pelo cinemão americano, pela constelação de astros e estrelas hollywoodianos e eles estão por aqui em quantidade mais do que suficiente. A rendição é incondicional. Diante de filmes meramente comerciais como ''Cinderela Man'', por exemplo, com lançamento no Brasil no próximo dia 12, a subserviência até mesmo de boa parte da crítica local é até constrangedora. Mesmo que isto signifique ocupação do mercado interno, menos espaço para o similar nacional, tráfico ideológico, etc, etc. Agora, convenhamos: o cinema feito em casa, o filme ''fatto a casa'' também não anda ajudando a reverter esta situação. Tomemos por exemplo a tão esperada estréia deles na mostra competitiva, a principal. Foi ontem. E foi de doer. Ao final de uma sessão superlotada, ''I Giorni dell'Abbandono'', de Roberto Faenza, acabou despachado para o pronto esquecimento ao som de uma longa e sonora vaia que ecoou tristemente por toda a laguna veneziana.
Os dias de abandono do título são vividos pela personagem Olga, que o marido troca subitamente por uma mulher mais jovem e bela. Ela se descabela, chora, range os dentes, procura como pode se adaptar a nova situação. O espectador também. Tudo é raso, sem qualquer densidade. Faenza parece acovardado diante do argumento que propôs e deixa tudo à deriva, esquemático e superficial. E o que é pior, a caminho do irremediável ridículo, do risível. É como um desses longos capítulos de telenovela do SBT, carregados de falsa intensidade e intercalados por súbitas reviravoltas no tom da dramaturgia. Pensando bem, a vaia foi até moderada diante da extensão do desastre. Ainda restam dois disparos na artilharia dos anfitriões.
Quem se deu melhor na jornada de ontem, embora também sem convencer, foi o americano John Turturro, em sua terceira experiência por trás das câmeras ótima a estréia, ''Mac'' (92), razoável a segunda, ''Illuminata'' (98). Agora, seu estranho filme ''Romance & Cigarettes'' é uma bizarra mistura de musical, comédia e drama temperada pelo ultraje. Infelizmente não a rigor.
O operário Nick (James ''Soprano'' Gandolfini) está enganando a mulher Kitty (Susan Sarandon) com a vulcânica Tula (Kate Winslet). A traição é descoberta e Nick passa a viver um inferno com a mulher temperamental. Tudo é levado em tom de farsa, meio ópera bufa. Quando alguém pensa alguma coisa e não sabe como se exprimir, é hora da música. Todos cantam e dançam como nos velhos musicais, nas ruas e em qualquer lugar, canções que vão de Bruce Springsteen a Tom Jones, de Nick Cave a Irving Berlin. Mas tudo muito brega, muito kitsch. E quase muito engraçado.
É que Turturro não assume por completo o ultraje desbragado da primeira meia hora, quando o filme é despudoradamente desbocado. De repente as coisas vão mudando e a comédia recua para a entrada em cena de um drama que desqualifica e engessa o filme, uma guinada paradoxal em direção a uma incompreensível solução conciliadora, em tom moralista e quase grave. Uma trama saudavelmente anárquica vira então um filme-família. O politicamente incorreto simplesmente desaparece e ''Romance & Cigarettes'' termina como um filme careta, esvaziado
A rendição aos americanos se estende hoje ao excêntrico Tim Burton, cuja ''Fantástica Fábrica de Chocolate'' ainda faz enorme (e merecido) sucesso no Brasil. Seu filme aqui, fora de competição, é ''Corpse Bride'', uma funérea animação que estréia no Brasil em outubro. Também hoje tem Brasil no 62º Festival de Veneza. ''Árido Movie'', o segundo longa metragem do pernambucano Lírio Ferreira, passa na seção paralela Orizzonti, na qual 20 longas metragens competem pelo ''Premio Venezia Orizzonti''. Aliás, ainda sem ter visto o representante brasileiro, é impossível considerar a priori que ele seja inferior a pelo menos de três a seis títulos, entre sofríveis e precários, incluídos na seção principal. E ''Casa de Areia'', de Andrucha Waddinton, recusado pela curadoria, é bem superior a estes mesmos títulos. Enfim, critérios. E até ontem o filme de George Clooney, ''Good Night. And Good Luck'', ainda se mantinha na ponta da bolsa de apostas como o mais sério candidato ao Leão de Ouro.


