Curitiba - Não se trata de um filme mudo, mas de um filme sem diálogos. Não fala exatamente sobre relacionamentos, mas sobre o abismo que habita as relações. Ou algumas delas. No caso de ''Corações Desertos'', longa-metragem dirigido pelo gaúcho Cristiano Burlan e filmado em Curitiba, o abismo está na ausência da comunicação. O filme conta a história fragmentada de um casal que deixou de se comunicar e passa junto a sua última noite. O argumento, assinado por Burlan, virou roteiro de 71 minutos nas maõs de Arthur Tuoto. As filmagens aconteceram no ano passado e - encerrada a fase de pós-produção - o longa está sendo inscrito nos principais festivais do Brasil e exterior. Até para Cannes - onde acontece um dos mais importantes eventos do cinema mundial - o filme já foi enviado.
Um passo grande - e ousado - para quem dirige seu primeiro longa-metragem. Nascido em Porto Alegre e atualmente morando em São Paulo, Cristiano Burlan, não toma como limite a falta de dinheiro para produzir o que quer. Um exemplo, é o próprio ''Corações Desertos'', que teria orçamento de R$ 600 mil - caso todas as despesas fossem pagas em espécie - mas pôde ser finalizado com modestos R$ 3 mil. ''Isso porque as pessoas envolvidas trabalharam em sistema de cooperativa. Não cobraram cachê, mas são sócias do filme'', explica o diretor.
Ele teve como parceiros nomes como a fotógrafa colombiana Pilar Perdomo. A produção executiva do projeto ficou à cargo do cineasta Gil Barone e da ex-secretária de Cultura do Estado Monica Richbieter, que deixou a vida política para se dedicar à produção de cinema e outros projetos culturais.
''Corações Desertos'' tem apenas dois personagens em cena. Um casal interpretado por Janaína Spoladore (irmã de Simone Spoladore) e Ed Canedo. As filmagens aconteceram em estúdio, mas também tem várias cenas externas que mostram a cidade. Quase todas as cenas externas foram filmadas de madrugada ou no amanhecer em lugares como a Praça Eufrásio Correia, as estações Tubo e ruas do bairro Juvevê.
Foram dez dias de filmagem utilizado equipamentos com a tecnologia HDV (padrão de alta resolução). ''Algumas pessoas podem discordar, mas essa tecnologia é superior à digital'', diz o diretor. Mesmo pronto o projeto está sendo inscrito também em leis de incentivo para tentar arrecadar verba para ser copiado em 35 mm. ''Mas mesmo antes disso podemos exibir o filme em salas com tecnologia digital'', adianta Burlan.
A idéia de fazer o longa surgiu enquanto o diretor fazia um curso de especialização na Academia Internacional de Cinema, em Curitiba. Ele passou pouco mais de um ano na cidade e nesse período realizou seis curtas metragens e um videoclipe, incluindo ''Os Solitários'' selecionado para a Jornada Internacional de Cinema da Bahia. Depois de terminar as filmagens de ''Corações Desertos'', Burlan seguiu para São Paulo.
Na capital paulista, ele investe em novos projetos, todos sendo tocados simultaneamente: um curta intitulado ''Quase Nada'', um videoclipe da banda O troco, uma série de 10 documentários com temáticas sociais e já escreve o argumento e o roteiro de um próximo longa-metragem, ainda sem título, sobre o suicídio. ''Corações Desertos'', que tem ainda trilha original composta pelo músico Demian Garcia, tem estréia marcada em Curitiba para o segundo semestre deste ano.

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