Com a entrega dos troféus Candango e da atraente premiação em dinheiro que ultrapassa os 400 mil reais a ser dividida entre os vencedores, termina hoje à noite o 39º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Antes do anúncio dos melhores da mostra, em cerimônia que acontece na Sala Villa Lobos do Teatro Nacional, será exibido 'hors concours' o documentário ''Hercules 56'', de Silvio Da-Rin. Ontem outro documentário, ''Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá'', fechou a seção competitiva.
A expectativa em relação à decisão do júri este ano é redobrada, já que de modo geral o equilíbrio entre os filmes foi tônica predominante.
De uma coisa ninguém poderá reclamar: embora não absoluto, este equilíbrio entre os longas que competiram é, em medida justa e de justiça, fruto de uma visão de Brasil que os realizadores aportaram este ano ao festival. A visão política, social, existencial de um país às voltas com suas lembranças, com suas veias abertas, seus conflitos urgentes porque dilacerantes, sua busca incessante de uma nacionalidade de raízes. Sua premente irresolução, enfim. Não é, no conjunto, uma visão das mais otimistas. Longe de qualquer celebração, o que os realizadores buscaram aqui nestes seis títulos, através de estilos muito próprios a cada um e, claro, desfilando diferentes impetuosidades, foi a compreensão diante da intensidade de nosso principal e sempre complexo parque temático: a alma brasileira.
''Eu me encontro naquele momento da vida em que, embora não vá participar da colheita, tenho a convicção de que vou morrer semente''. Esta bela, lúcida e iluminada certeza partiu de Frei Beto, o dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, durante coletiva no fim de semana no Hotel Nacional. Ele veio a Brasilia acompanhar a estréia de ''Batismo de Sangue'', baseado em seu livro homônimo e um dos candidatos aos prêmios da mostra. Afastado do PT por não concordar com os rumos antiéticos que o partido tomou em 2005, Frei Beto considerou satisfatória a adaptação de sua obra: ''o livro é uma coisa, o filme é outra''.
O filme, produção mineira dirigida por Helvécio Ratton, reconstitui episódio negro da história recente do Brasil: há quase 40 anos, no final dos anos 1960, um grupo de frades dominicanos, movidos por ideais cristãos, decide apoiar a luta armada contra a ditadura militar. Mesmo sem pegar em armas, os religiosos são presos e torturados. Um deles, Frei Tito de Alencar, vai para o exílio na França, onde acaba se suicidando em meio a insuportável crise de depressão causada pelas torturas morais a que também tinha sido submetido.
Construído sobre narrativa e dramaturgia tradicionais, ''Batismo de Sangue'' envolveu e emocionou o publico que lotava o Cine Brasília, há dezenas de anos templo oficial da mostra. Explícito, mas nunca excessivo, o roteiro não poupa as sensibilidades da platéia ao reconstituir graficamente, com a crueza descrita nas letras de Frei Beto - ele apenas transcreveu arquivos originais da Justiça Militar, depoimentos dos dominicanos que sobreviveram e suas próprias memórias de ex-militante torturado -, as longas e pavorosas sessões de torturas a que foram submetidos os que afrontaram com ações o regime militar entre 1967 e 1975, seja no Presídio Tiradentes, seja nas dependências do DOI-CODI.
O filme de Ratton não está isento de problemas, entre eles ausência de sutileza e consequente obviedade em vários momentos, uma narrativa às vezes com o peso da burocracia e inadequações na composição do elenco - Cássio Gabus Mendes como o temível torturador, Delegado Fleury, se não chega a comprometer, está longe de acrescentar o carisma maléfico que o personagem construiu às custas da dor e do sofrimento alheios. Entre os méritos, a expressiva direção de arte à serviço da reconstituição de época, a sublime musica original do ex-Uakti Marco Antonio Guimarães e a capacidade de condensar satisfatoriamente em quase duas horas um período de radical efervescência e em rota de mudanças.
O que o filme pretende deixar claro é a participação dos dominicanos no processo da luta armada e o uso político que a ditadura pretendeu fazer desta participação, naquele momento em que a Igreja Católica, ao não se opor publicamente à repressão violenta, avalizava o regime militar de exceção. Isto ''Batismo de Sangue'' consegue, e bem.
Um belo e comovente documentário assinado pelo especialista Vladimir Carvalho resgatou do limbo o escritor José Lins do Rego e recebeu como prêmio antecipado verdadeira aclamação do público. Depois de cinco anos em produção, ''O Engenho de Zé Lins'' agora ficou pronto. E revela que, além de documentarista afeito aos métodos mais tradicionais do gênero, Vladimir Carvalho sabe injetar modernidade mesmo nestas trilhas já trilhadas - como a paixão doentia do escritor pelo Flamengo, capaz de transtorná-lo e transformá-lo cegamente.
É o caso dos depoimentos, espinha dorsal deste documentário e de resto da própria filmografia de Carvalho. Entre eles, o impressionante, emocionado, quase dilacerado relato do também escritor Thiago de Mello, amigo íntimo de Lins do Rego, fazendo revelações e inconfidências sobre o tempo terminal da paixão e morte do escritor de ''Menino de Engenho''. Ou de Carlos Heitor Cony, polêmico quando transfere para os escritores do nordeste a importância literária revolucionária que sempre se atribuiu ao Modernismo de 22. Ou o muito bem humorado (e também polêmico) relato de Ariano Suassuna, quando dá a entender que o sociólogo Gilberto Freyre não teria sido capaz de escrever um romance.
Para aumentar a dor de cabeça do júri, o pernambucano ''Baixio das Bestas'' reitera todo o perfil polemista do diretor Cláudio Assis, que em 2003 sacudiu o Planalto e em seguida o resto do país, com seu radical ''Amarelo Manga'', até hoje objeto de controvérsias. Ainda desta vez Assis e seu roteirista habitual, Hilton Lacerda, não usam de meia tintas para falar da falência social e moral de um país.
O ''baixio'' em questão é um espaço ao mesmo tempo pernambucano mas também metafórico, uma comunidade rural de típica cultura latifundiária engessada. As ''bestas'' são o entorno humano, homens e mulheres, vivendo episódios que se entrelaçam e se nutrem de dramaturgia, sem muita unicidade mas capazes de focar a radiografia que Assis pretende tirar deste universo de classes que convivem nos extremos: os agroboys, as prostitutas, a burguesia da cana. É inegável a força brutalizante do filme, sua imaginação telúrica estampada nas imagens preciosas de Walter Carvalho; mas é inegável também a falta de unidade dramática num filme que vive boa parte do tempo à custa de impactos.

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