CINEMA - Festival abre em alta com '500 Almas'
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sexta-feira, 26 de novembro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Brasília<br> Especial para a Folha 2 
A abertura tradicional, aquela com o cerimonial de praxe e entregue festivamente a convidados, aconteceu na terça à noite. O publico que lotou a Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional foi generoso na medida ao aplaudir a competente Orquestra Sinfônica de Brasília interpretando repertório em homenagem aos 15 anos de morte do compositor Cláudio Santoro. Mas foi bairrista além dos limites ao ovacionar ''As Vidas de Maria'', o irregular longa que, fora de concurso, abriu este 37º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Mas como o que conta mesmo na tela é o concurso oficial de longas e curtas, a inauguração da mostra competitiva não poderia ter sido mais estimulante, na noite de quarta. O que é dizer pouco a respeito do documentário que marca a estréia do especialista Joel Pizzini no longa metragem. ''500 Almas'' é um mergulho, pausado e profundo, no universo mítico e existencial dos índios guatós, povo milenar hoje com remanescentes - entre 400 e 500 indivíduos, não se sabe com precisão espalhados pela região Pantanal.
Para começar, serve a definição do próprio autor ao apresentar seu trabalho e sua equipe no palco do Cine Brasília, templo oficial do evento: ''um filme etnopoético''. Ela é precisa na medida em que enfeixa as duas vertentes capitais da obra, a precisão científica e o rigor da pesquisa etnográfica de um lado, e o trato poético aplicado ao tema de outro. Mas Pizzini, reconhecidamente um caprichoso construtor de belas imagens a rechear não apenas seus documentários, vai mais além dos limites deste rótulo de caráter quase promocional.
''500 Almas'' é uma rara conjugação de inventivas. Ao buscar o resgate do universo mítico-existencial da etnia guató, Pizzini percorre um minucioso caminho a partir da decretada extinção desses índios, na década de 1960, passa pela ''redescoberta'' pela freira missionária Ada Gambarotto na década seguinte e chega até o reconhecimento oficial da nação e a reconquista legal de parte do antigo território dos guatós.
O diretor-roteirista, assim como seus personagens principais e também conterrâneos (Pizzini é matogrossense), toma todo o tempo e os meios de que precisa para armar sua narrativa e o espectador acaba se convencendo de que o tempo tomado é também parte da metáfora para a reflexão sobre o filme. O poeta Manoel de Barros, outra alma pantaneira, está ao fundo costurando o lirismo como fonte de percepção dos guatós; na Alemanha, o valioso acervo do etnólogo Max Schmidt, com seus estudos no inicio do século passado sobre a língua guató, serve de referência à retomada do tema pela linguista Adair Palácio, outra presença no documentário.
Mas Pizzini não pára por aí. Seu documentário subitamente toma posição. Armado de um surpreendente viés sócio-político, ele faz de um dado localizado o assassinato ainda hoje impune de um líder guató o emblema da perene precariedade da condição dos povos indígenas no Brasil. Não há proselitismo, porque o estilo refinado, elegante de Pizzini jamais permite que o filme enverede pelo demagógico ou pelo panfletário. Sua reflexão é abrangente o suficiente para permitir uma incursão politizada em território, de resto, amplamente dominada pela poética visão deste mundo. Um belo filme, desde já digno das melhoras antologias do documentário etnográfico.
- O crítico Carlos Eduardo Lourenço Jorge está em Brasília a convite da organização do Festival, como membro do júri da mostra de filmes em 16mm.


