No fim de semana, Fernanda Montenegro retoma sua participação no filme ''Olga'', que Jayme Monjardim está rodando no Rio de Janeiro, inspirado na obra de Fernando Morais. Ela interpreta dona Leocádia, a mãe de Luiz Carlos Prestes. Sua participação é pequena no roteiro. Pequena, mas importante. ''Fernanda foi uma das primeiras atrizes que pensei para o filme, não apenas pela sua excepcional qualidade como intérprete, mas também pela boa sorte que ela sempre atrai'', comenta Monjardim.
''Olga'' é sua estréia de direção no cinema e, assim como Jayme Monjardim, diversos outros cineastas contaram com a presença de Fernanda Montenegro no elenco de seu primeiro filme. Ao longo da carreira, a atriz teve participações, ainda que pequenas, em 15 filmes. Neste ano, além do longa de Monjardim, a atriz rodou também, em fevereiro, ''O Outro Lado da Rua'', a primeira incursão na direção cinematográfica do roteirista Marcos Bernstein. ''É curioso, mas sempre os estreantes se sentem motivados a me convidar para seu primeiro longa'', comenta Fernanda. ''Normalmente, aceito, pois sempre é uma experiência muito estimulante.''
A lista, de fato, é extensa e foi iniciada em 1955, quando Fernanda participou de ''Mãos Sangrentas'', primeiro filme rodado no Brasil pelo argentino Carlos Hugo Christensen, veterano de outras fitas sul-americanas. A atriz, na verdade, não aparece fisicamente na história, apenas dubla um dos personagens, mas já contabiliza o longa em sua filmografia.
Seu primeiro grande trabalho viria dez anos depois, quando protagonizou ''A Falecida'', versão da obra de Nelson Rodrigues dirigida por Leon Hirszman em 1965. Fernanda viveu Zulmira, mulher obcecada pela idéia da morte que deseja um enterro luxuoso, como compensação pela vida miserável que leva. ''Leon foi um artista maravilhoso, além de uma pessoa generosíssima'', conta. ''O filme me permitiu ainda revisitar o cotidiano tão específico do subúrbio.''
A rigor, Fernanda só foi protagonista em quatro filmes em sua carreira (além de ''A Falecida'', a lista contém ''Tudo Bem'', de Arnaldo Jabor, ''Eles não Usam Black-Tie'', de Hirszman, e ''Central do Brasil'', de Walter Salles), mas sua presença é constantemente requisitada. ''Ela é muito generosa e isso é importante para quem está começando'', comenta Guel Arraes, que convidou Fernanda para viver Nossa Senhora em seu longa de estréia, ''O Auto da Compadecida''. ''Na verdade, eu já conhecia essa qualidade dela quando comecei também na televisão: na primeira novela de que participei na direção, ''Guerra dos Sexos'', eu estava com pouco mais de 18 anos, Fernanda era uma das atrizes principais e sua atenção pela dinâmica do nosso trabalho era muito estimulante.''
Fernanda conta, aliás, que é justamente a motivação dos iniciantes que a deixa mais confortável para trabalhar em seus filmes. ''Como o primeiro longa é muito importante na carreira de qualquer artista, os cineastas chegam plenos de vitalidade para aquela espécie de casamento e toda a equipe precisa colaborar para que tudo corra bem'', conta ela, admirada com a criatividade que move o diretor iniciante. ''Eles sabem que o primeiro filme pode representar tudo ou nada em sua carreira, pode significar o início de uma vida artística ou sua morte prematura, então é o momento em que o diretor precisa se firmar.''
A atriz lembra que sempre apresentou idéias para seus personagens, mesmo quando sua caracterização já estava determinada pelo diretor. ''É importante que ele saiba exatamente o destino de cada personagem, mas também é necessário que o ator apresente a sua concepção como forma de colaboração'', comenta Fernanda, que se sente mais à vontade em um set de filmagem que em um estúdio de televisão. ''Há uma certa histeria na tevê que me incomoda'', comenta.

mockup