CINEMA - 'Fahrenheit 9/11' quer derrotar Bush
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de junho de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Ainda falta quase um mês para o público brasileiro conhecer o filme que o júri do Festival de Cannes premiou no mês passado com a Palma de Ouro, estabelecendo e deixando claro, este ano pelo menos, o primado da política sobre o cinema. Desde sexta-feira os americanos estão lotando as 868 salas um numero inédito para o gênero espalhadas pelo país para saber o porquê de tanta polêmica. O que todos já sabiam é que ''Fahrenheit 9/11'' era um filme para tentar impedir a reeleição de George W. Bush em novembro. Faltava conhecer apenas quais os argumentos e sua consistência. E se de fato o documentário pode atuar como ponta de lança eleitoral, fazendo prevalecer o poder de convencimento de uma arma que é historicamente letal quando manipulada como propaganda.
As reações radicais dos republicanos são a primeira amostragem da capacidade que o filme tem para causar sérios estragos nas pretensões de George W. De início, antes da premiação em Cannes, foram imensas as dificuldades para se conseguir uma distribuição em território americano, com a arquiconservadora Disney a produtora arrependida fechando questão quanto a abrir generosos espaços nos circuitos nacionais. Nesse sentido, a estratégica Palma de Ouro serviu como abre-caminho e apressou a negociação de recompra do filme pela Miramax, associada a Lions Gate na tarefa de mapear o mais amplo circuito exibidor.
E há apenas alguns dias, a toda poderosa Motion Pictures Association of América, a temida MPAA, conduzida há décadas por um quase aposentado mas ainda feroz Jack Valenti, penalizou o filme com o código R (pretensamente por conta da brutalidade de cenas no Iraque), que impede que menores de 17 anos possam ver o trabalho de Moore. A resposta imediata do cineasta: ''Impede-se que garotos de 15, 16 anos entrem em contato com a guerra, mas estes mesmos garotos vão morrer daqui a dois anos no Iraque ou em qualquer outro lugar do mundo durante as intervenções americanas''.
A Casa Branca contra-atacou. O porta-voz Dan Bartlett se apressou a dizer que as acusações que estão no filme são ''escandalosamente falsas''. Já os democratas, em outro atestado de que ''Fahrenheit 9/11'' é importante combustível de palanque, não param de celebrar o filme. Jay Inslee, representante do partido em Washington, disse que é ''excepcionalmente bom''. O senador democrata Tom Harkin, fazendo o melhor boca-a-boca que qualquer cineasta poderia desejar, incentivou todos os americanos para que vejam o filme, e que não percam a oportunidade de saber ''o que houve antes e o que nos levou a este ponto''.
Como o título sugere, ''Fahrenreit 9/11'' mede a temperatura da liberdade nos Estados Unidos combinando documento, sátira e propaganda. O George W. Bush que está no filme é retratado como preguiçoso, negligente, alguém que não deu importância às advertências recebidas no verão de 2001 de que a Al-Qaeda estava disposta a atacar, reagindo tarde e erradamente aos avisos a sequência em que o presidente é informado dos atentados às torres gêmeas é aterradoramente patética. Além disso, o filme acusa Bush Jr. de manipular a opinião pública, acenando com a possibilidade paranóica de novos ataques terroristas e assim obter apoio da população para seus planos de invadir o Iraque. O motivo real: as reservas de petróleo. Há, ainda, farto material sobre as ligações comerciais de George Bush, Sênior, com a família árabe dos Bin Laden nos anos 1970, culminando com a secreta liberação do espaço aéreo americano para que os familiares do terrorista deixassem o país, logo após os atentados ao World Trade Center.
''Fahrenheit 9/11'' é oportuno e oportunista, informa, provoca, aterroriza, convence, diverte e manipula. A crítica americana, se não é unânime, pelo menos reconhece esses pontos como positivos e saudáveis para sacramentar o processo democrático. E Michael Moore já avisou: em 2006 deve lançar seu próximo torpedo, endereçado ao coração ao sistema de saúde dos Estados Unidos. O título ? ''Sicko''.


