CINEMA - Estréias nacionais dão fôlego ao circuito
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de janeiro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
Demorou, mas novos ventos começam a soprar neste início de temporada 2008, trazidos principalmente pelo anúncio dos prêmios mais badalados pela mídia internacional - o que não significa que sejam os mais importantes em termos de qualidade, mas aqueles que garantem maior peso às bilheterias. Mas estes ventos chegam acompanhados de algumas nuvens negras.
A greve dos roteiristas, uma das mais persistentes na história dos movimentos reivindicatórios hollywoodianos e que já dura dez semanas, esvaziou muito não só a expectativa em torno do Globo de Ouro, mas o próprio jantar durante o qual seriam anunciados os prêmios concedidos pela imprensa estrangeira baseada em Hollywood. A festa foi cancelada e os premiados de 2007 serão conhecidos amanhã durante burocrática entrevista coletiva.
Se o movimento grevista não tiver solução, a cerimônia do Oscar prevista para a noite de 24 de fevereiro também pode não ocorrer. E isto terá um custo-prejuízo ainda incalculável para a indústria: em termos econômicos, ninguém será poupado de perdas substanciais. Inclusive o espectador.
Entre os títulos que aportaram à Londrina neste final de semana, um dos destaques é o brasileiro ''Meu Nome Não é Johnny''. Baseado no livro homônimo escrito por Guilherme Fiúza, o filme narra a história real e atribulada do produtor João Guilherme Estrela, cidadão carioca classe média. Nos anos 1980 e 90, João se envolveu duplamente com drogas, como consumidor e vendedor do produto.
O argumento passa longe de tramas como ''Cidade de Deus'' ou ''Tropa de Elite''. O personagem nunca transitou pela favela: era o tal traficante do asfalto, obtinha a cocaína por outros meios e distribuía de forma quase artesanal, apenas para o círculo social a que pertencia. Sem know-how de quadrilheiro, sem qualquer estrutura ou organização, imediatista e irresponsável, seu destino era previsível. Preso, foi condenado, cumpriu pena, pagou seus pecados e se reabilitou. ''Meu Nome Não é Johnny'', portanto, é uma história de redenção.
O filme funciona bem, é narrado com eficiência pelo diretor Mauro Lima, oferece um roteiro com mais altos do que baixos - providencial o mix entre drama e comédia - e sobrevive com folgas à sua extensão de mais de duas horas. Graças também, é bem verdade, a tudo o que Selton Mello faz e desfaz em cena como o personagem título. O ator repete aqui aquele solo extraordinário - embora o elenco esteja muito presente - de ''O Cheiro do Ralo'', um dos melhores filmes recentes do cinema brasileiro.
''O Suspeito'' inscreve-se na linha de outros thrillers políticos sobre a luta contra o terrorismo e o intervencionismo exterior dos EUA - o modelo mais próximo poderia ser a superior ''Syriana'', embora haja ligações com ''Munique'' e ''Paradise Now''. O filme do sul-africano Gavin Hood, consagrado com o Oscar-2006, dado a ''Infância Roubada'', exibido ano passado em Londrina, faz um ambicioso apanhado geral, do fundamentalismo islâmico ao terrorismo globalizado, passando pela guerra suja dos Estados Unidos e pelo fanatismo religioso.
Talvez seja mesmo este o problema do filme: abarcar conflitos em demasia, inúmeras subtramas, a saber: os abusos da CIA, o silêncio cúmplice do Congresso, as desventuras de um engenheiro químico injustamente sequestrado e torturado, a busca desesperada empreendida pela esposa, a crise de consciência de um agente estadunidense, que não aceita as atrocidades dos superiores, a ação de grupos extremistas que apostam nos atentados suicidas e um amplo espectro de etecéteras que transbordam os 120 minutos de trama.
O elenco é visceralmente profissional e, portanto, seguro, com a presença forte de Jake Gyllenhaal e Reese Witherspoon e mais os pequenos, mas sólidos, aportes de Alan Arkin, Peter Sarsgaard e, para não deixar dúvidas, Meryl Streep. No todo, o espectador está diante de um projeto digno, honesto e bem intencionado. Valores elevados, com certeza, mas que por si só não asseguram a imortalidade de um filme.
O único imprevisto na comédia ''Diários de Uma Babá'' é a absoluta previsibilidade de todos os aspectos envolvidos no filme. Custa acreditar que os roteiristas sejam os mesmos da muito original/sórdida/divertida e dramática ''American Splendor''. Com certeza, pretendeu-se uma homenagem às comédias sofisticadas dos anos 1950, e também a ''Mary Poppins'', com a babá elevando-se aos céus de Nova York. Este era o propósito.
A heroína (Scarlett Johansson) é alguém formada em antropologia, que se torna babá trabalhando para uma das famílias abastadas de Manhattan. Ela aceita o emprego para estudar a classe social da criança. O problema é que, de onde e quando se esperava uma boa sátira, o que se obtém é comédia sentimental e rósea, com poucas situações divertidas. O resultado acaba sendo somente um complacente retrato de costumes do grupo social explorador e esnobe.
Há ainda, para quem gosta, novo capítulo na batalha entre dois dos monstros campeões de bilheteria na história recente do cinema: ''Alien vs Predador 2''. Entre todos os confins (e olha que não poucos) do universo, ambas decidem por uma pequena cidade dos EUA, onde ninguém, claro, sabe de nada e nem conhece os visitantes. E a pancadaria corre solta entre todos, os de lá e os daqui, estes em clara desvantagem.
Há uma dupla de diretores que assina esta trama, e a aposta mais evidente foi pelos efeitos, já que o roteiro possibilita apenas um filme destrambelhado, sempre sintonizado com o absurdo total, pavimentado por uma legião de cadáveres estraçalhados.


