CINEMA - Era uma vez, os anos de chumbo
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de novembro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Brasília<br> Especial para a Folha 2 
Ratificada uma vez mais a fama de festival mais politizado do país. O público predominantemente jovem que quinta à noite lotou o Cine Brasília ovacionou por cerca de cinco minutos mais um concorrente da principal mostra competitiva, o ''thriller'' político ''Cabra Cega'', segundo trabalho de ficção do paulista Toni Venturi. O clima de consagração já estava no ar, imposto pelo impactante curta-metragem ''Mina de Fé'', história de amor louco entre garota e dono do tráfico em favela carioca. Com a forte entrada de ''Cabra Cega'', o 37º Festival de Brasília mantém o excelente índice de 100 por cento de aproveitamento qualitativo. Já na abertura, ''500 Almas'', de Joel Pizzini, tinha se revelado uma fascinante, inesquecível jornada pelos domínios do documentário, de abrangência ao mesmo tempo brasileira e universal.
Até o momento o tema vinha sendo resgatado pelo cinema brasileiro com reticências, reservas, receios, cuidados excessivos ou mesmo equivocadamente a exceção ficava por conta de ''Pra Frente Brasil'', de Roberto Farias, o corajoso desbravador de 1982, apesar das restrições que se possa fazer. Agora, aquele período de luta dos movimentos armados contra a ditadura que se instalou no Brasil a partir de 1964 encontra um título de boa envergadura. ''Cabra Cega'' procura e encontra seu espaço num segmento rarefeito, o do filme político que retoma um passado recente e doloroso, quando a democracia era apenas um grito parado no ar. E chega também como elemento fertilizador do presente debate que se coloca sobre a questão da possível/provável reabertura dos chamados porões de ditadura.
No argumento roteirizado por Di Moretti, no momento um dos nomes mais em evidência na criação de escrituras diversas para o cinema brasileiro, estamos no limiar da década de 1970, império do repressivo regime militar que se instalou no país. Roberto, codinome Thiago (Leonardo Medeiros) é o jovem guerrilhado ferido em batalha de rua. Escondido no apartamento (ou aparelho, no glossário da luta armada) de Pedro (Michel Bercovitch), por enquanto apenas um simpatizante da causa, ele se recupera do ferimento.
Na maior parte do tempo isolado, Thiago é o eixo da narrativa. Sua revolta e seu ódio são arraigados e inflexíveis, e o que fraturou sua humanidade não foram seus princípios ideológicos, mas a impossibilidade de torná-los factíveis, de usá-los democraticamente para transformar o país de resto, aquela seiva que alimenta os sonhos de um mundo melhor.
No tempo deste confinamento, porém, o personagem vai aos poucos se reconstruindo internamente, encontrando o abrandamento emocional. Ele se apaixona por Rosa (Débora Duboc), a enfermeira que o atende. Thiago parece compreender afinal as palavras do Che sobre buscar sempre o equilíbrio entre endurecimento e ternura. São mudanças interiores que coincidem com o acirramento da luta lá fora. Um a um, os líderes da resistência vão caindo e o cerco se fecha. Thiago, Rosa e Pedro partem para um emblemático, quase elegíaco final apostando na esperança e na utopia.
''Cabra Cega'' tem ótima fotografia de Adrian Cooper, que equaciona com sabedoria como aproveitar, física e dramaticamente, o apartamento onde se passa boa parte da narrativa. Estratégica a trilha sonora de Fernanda Porto, tanto a original como a resgatada com hits da MPB engajada da época, de Chico Buarque a Sergio Sampaio. E ótimas interpretações de todo o elenco.
Hoje , excepcionalmente, deixamos de publicar a coluna Reality Show de Célia Musilli.


