E o Oscar vai para...Ennio Morricone! Pelo menos uma estatueta não é mais segredo, já que seu destinatário foi anunciado com antecedência. Durante a 79ªcerimônia dos prêmios Oscar, no próximo dia 25, um Oscar honorífico reconhecendo toda uma trajetória artística será entregue ao compositor italiano, autor de mais de 300 trilhas sonoras e já nominado em cinco oportunidades: ‘‘Cinzas no Paraíso’’ (78), ‘‘A Missão’’ (1986), ‘‘Os Intocáveis’’(87), ‘‘Bugsy’’ (91) e ‘‘Malena’’ (2000). Não ganhou em nenhuma delas.
  Em muitas ocasiões a Academia de Hollywood – não se sabe por quais razões, casualidade ou simplesmente má vontade – se comporta injustamente com muitos artistas. Praticamente os ignora ou os mantém como eternos nominados, esperando o dia em que se tornem mais ou menos decrépitos. Então resolvem minimizar os contínuos despropósitos com este Oscar honorífico, dedicado a uma carreira que tão ‘‘amavelmente’’ decidiram não premiar em muitas outras oportunidades.
  Bem, a resposta do compositor os acadêmicos já tiveram: ‘‘O prêmio é uma honra, mas nada acrescenta aos valores essenciais de um músico. Sem o Oscar, minha vida profissional continua tranqüilamente, e sempre em busca do máximo’’. Já o presidente da Academia, Sid Ganis, justifica assim a premiação: ‘‘Não somente levamos em conta a quantidade de composições que ele nos presenteou, como também o fato de muitas delas serem obras-primas populares’’.
  Morricone, um romano de 78 anos, culto e refinado, ocupa posição privilegiada na galeria dos grandes criadores de música para cinema. Ele conseguiu deixar marcas inconfundíveis ao combinar sons e melodias que emolduram histórias assinadas por grandes diretores. Foi nos anos 1960, ao lado de seu colega de escola Sergio Leone, que Morricone de fato despontou com a música inovadora que compôs para o western spaghetti, especialmente para ‘‘Três Homens em Conflito’’ e ‘‘Era Uma Vez no Oeste’’. Na década seguinte, a versatilidade foi sem limites. Torna-se o músico mais requisitado da Europa. Nos anos 1980, sua melhor partitura é para o excessivo épico ‘‘Novecento’’, de Bertolucci.
  O prestígio europeu o conduz a Hollywood. Candente, melancólica e nostálgica, a trilha de ‘‘Era Uma Vez na América’’ (1984), do velho amigo Leone, também debutante em Hollywood, é a primeira de uma série de obras-primas do período, que reserva ainda algumas das mais gloriosas composições jamais escritas para cinema: ‘‘A Missão’’, épico de Roland Joffé. ‘‘Os Intocáveis’’, trilha feita para o filme de Brian De Palma, encerra seu ciclo dourado nos EUA. De volta à Itália, compõe a partitura que para muitos é a mais bela, frágil, sensível, a mais dolente e triste: a música de ‘‘Cinema Paradiso’’.
  Curiosamente, os anos 1990 e 2000 vão encontrá-lo muito discreto, apenas com algumas raras boas trilhas. Sua marca notável aparece em filmes como ‘‘Bugsy’’, na refilmagem de ‘‘Lolita’’ e em ‘‘U-Turn’’. Pode ser que a idade tenha influenciado seu trabalho, atenuando sua audácia na experimentação. Mas seja lá o que dele vier nos próximos anos, Morricone já fez história clássica como um dos compositores que melhor souberam adaptar a linguagem musical às imagens. E no cinema é provável que talentos assim só se contem nos dedos de uma única mão.

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