CINEMA - Era uma vez o Oscar, para Morricone
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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
E o Oscar vai para...Ennio Morricone! Pelo menos uma estatueta não é mais segredo, já que seu destinatário foi anunciado com antecedência. Durante a 79ªcerimônia dos prêmios Oscar, no próximo dia 25, um Oscar honorífico reconhecendo toda uma trajetória artística será entregue ao compositor italiano, autor de mais de 300 trilhas sonoras e já nominado em cinco oportunidades: Cinzas no Paraíso (78), A Missão (1986), Os Intocáveis(87), Bugsy (91) e Malena (2000). Não ganhou em nenhuma delas.
Em muitas ocasiões a Academia de Hollywood não se sabe por quais razões, casualidade ou simplesmente má vontade se comporta injustamente com muitos artistas. Praticamente os ignora ou os mantém como eternos nominados, esperando o dia em que se tornem mais ou menos decrépitos. Então resolvem minimizar os contínuos despropósitos com este Oscar honorífico, dedicado a uma carreira que tão amavelmente decidiram não premiar em muitas outras oportunidades.
Bem, a resposta do compositor os acadêmicos já tiveram: O prêmio é uma honra, mas nada acrescenta aos valores essenciais de um músico. Sem o Oscar, minha vida profissional continua tranqüilamente, e sempre em busca do máximo. Já o presidente da Academia, Sid Ganis, justifica assim a premiação: Não somente levamos em conta a quantidade de composições que ele nos presenteou, como também o fato de muitas delas serem obras-primas populares.
Morricone, um romano de 78 anos, culto e refinado, ocupa posição privilegiada na galeria dos grandes criadores de música para cinema. Ele conseguiu deixar marcas inconfundíveis ao combinar sons e melodias que emolduram histórias assinadas por grandes diretores. Foi nos anos 1960, ao lado de seu colega de escola Sergio Leone, que Morricone de fato despontou com a música inovadora que compôs para o western spaghetti, especialmente para Três Homens em Conflito e Era Uma Vez no Oeste. Na década seguinte, a versatilidade foi sem limites. Torna-se o músico mais requisitado da Europa. Nos anos 1980, sua melhor partitura é para o excessivo épico Novecento, de Bertolucci.
O prestígio europeu o conduz a Hollywood. Candente, melancólica e nostálgica, a trilha de Era Uma Vez na América (1984), do velho amigo Leone, também debutante em Hollywood, é a primeira de uma série de obras-primas do período, que reserva ainda algumas das mais gloriosas composições jamais escritas para cinema: A Missão, épico de Roland Joffé. Os Intocáveis, trilha feita para o filme de Brian De Palma, encerra seu ciclo dourado nos EUA. De volta à Itália, compõe a partitura que para muitos é a mais bela, frágil, sensível, a mais dolente e triste: a música de Cinema Paradiso.
Curiosamente, os anos 1990 e 2000 vão encontrá-lo muito discreto, apenas com algumas raras boas trilhas. Sua marca notável aparece em filmes como Bugsy, na refilmagem de Lolita e em U-Turn. Pode ser que a idade tenha influenciado seu trabalho, atenuando sua audácia na experimentação. Mas seja lá o que dele vier nos próximos anos, Morricone já fez história clássica como um dos compositores que melhor souberam adaptar a linguagem musical às imagens. E no cinema é provável que talentos assim só se contem nos dedos de uma única mão.


