"Z: A Cidade Perdida": uma experiência de corte clássico, de sobriedade e elegância à prova de décadas
"Z: A Cidade Perdida": uma experiência de corte clássico, de sobriedade e elegância à prova de décadas | Foto: Reprodução



É praticamente um milagre que em 2017 tenha estreado um filme como "Z: A Cidade Perdida". E milagre maior ainda que tenha vindo à luz – luz, uma das chaves desse filme raro – de forma tão admirável, tão magistral, tão redonda. Tão fascinante. E como é desconcertante , sentar na poltrona dolby-anatômica-espacial de um multiplex de última geração e desfrutar de uma experiência de corte tão clássico, de sobriedade e elegância à prova de décadas, de um controle absolutamente hipnótico de tempo e narração. Adaptação de novela do jornalista David Grann (da revista New Yorker), baseada na história real do explorador e visionário Percy Fawcett (primeiros anos do século 20), o filme supõe a viagem ao coração de uma aventura desprovida de artifícios e excessos e que se completa, à perfeição, com um drama humano dotado de profundidade psicológica deslumbrante, constantemente abastecida de complexidade e matizes. E o responsável por essa façanha tem nome e sobrenome: James Gray, 48 anos, diretor estadunidense que filma com o pulso, a sabedoria e o talento de alguém que passou a vida atrás de uma câmera. Carreira curta mas intensa, autor por excelência (escreve, dirige e produz), Gray já deixou de ser aposta para ser, com "Z", um inegável vencedor.
O filme apresenta Fawcett como um homem que pretende fazer carreira no exército mas com poucas chances devido ao obscuro passado do pai, jogador e alcoolista. Ele vê a chance da redenção familiar ao ser enviado para uma viagem oficial com o objetivo de traçar a complicada fronteira entre Bolívia e Brasil, em algum ponto desconhecido nos confins da floresta amazônica. Esta primeira viagem lembra alguns momentos do "Fitzcarraldo" de Werner Herzog, com imagens como as da ópera em plena selva, o ataque dos índios no meio do rio e o barco preso nos galhos da árvore na margem. Mas para bem além disso, esta jornada inicial aproveita para introduzir aquilo que iluminará a obsessão de Fawcett, o humanismo. Uma visão do mundo que faz dos índios não "selvagens", mas seres humanos. A descoberta de rostos esculpidos na pedra e restos de cerâmica fará o explorador concluir que a selva abriga restos de uma civilização perdida que, provavelmente, seria anterior à europeia.
Após ser recebido como herói na Inglaterra, Fawcett (excelente trabalho de Charlie Hunnam, se redimindo do Rei Arthur ainda nas telas) expõe suas teorias na Real Sociedade Geográfica, mas é ridicularizado e decide voltar a prová-las, retornando à Amazônia. Embora o espectador saiba que a selva já está obsessivamente na veia do personagem, Gray deixa evidente a dor pela separação da família, mulher e filho ( e em breve outro menino e uma menina) . E isto se deve à interpretação brilhante de Sienna Miller, como a feminista e abnegada mulher de Fawcett. A segunda expedição não chega a bom termo, e logo o personagem está de volta, dissimulando o fracasso com a participação na I Guerra Mundial. Gray retoma a fixação pela selva em uma última expedição de Fawcett – agora com seu filho mais velho. Os dois nunca mais foram vistos. O terço final de "Z: A Cidade Perdida" está filmado de maneira ainda mais poética, e o plano que fecha a realização é daqueles que ficam na retina para sempre (o que parece uma grande homenagem ao "Apocalypse Now", de Coppola), em desfecho aberto a todo tipo de interpretações.
Embora o filme seja um trajeto existencial de ressonâncias contemporâneas, existe um discurso político que aponta de forma direta ao auge do racismo e à patética ideologia de Europa e Estados Unidos atuais. Um Ocidente arrogante, imobilizado e obcecado com seus problemas. "Z", embora espectadores o considerem um tanto longo, é obra absolutamente apaixonante, tão ambiciosamente concebida como plasmada de maneira bela, narrada com emoção e obediente ao tempo desta emoção. E, como diria o próprio Werner Herzog, está dedicado "a aqueles que são peregrinos, aqueles que podem contar uma história a um menino de quatro anos e conquistar totalmente sua atenção, aqueles que tem um fogo em seu interior, aqueles que tem um sonho e que não deixam de lutar por ele".

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