Puro e fino contraste. No palco, uma Zezé Motta radiante, feliz e cantante com a homenagem que recebeu do 35º Festival de Gramado. Na tela, uma overdose de pesada dramaturgia, obras densas e reflexivas de Argentina e Brasil com evidente aporte de qualidade na mostra competitiva de longas metragens. Já não era sem tempo.
A exibição dos 13 curtas-metragens em concurso termina hoje, e o festival entrou ontem em sua metade final em clima de amenidades e confraternização entre a comunidade cinematográfica do país. Amenidade meteorológica inclusive, com temperaturas bem acima daquelas que se espera para a região serrana nesta época do ano.
''Nacido y Criado'', quarto filme assinado pelo jovem cineasta Pablo Trapero, é prova eloquente da capacidade criativa de um segmento do cinema argentino contemporâneo. Dilacerante ensaio existencial sobre dor, sofrimento, culpa e auto-expiação é a história de Santiago, bem-sucedido decorador de interiores, marido de Milli e pai de Josefina que, após terrível acidente de carro provocado por um momento de distração, vê desmoronar seu universo de felicidade. Em pânico, ele desaparece da cena da tragédia sem saber o que houve com a mulher e a filha.
Um corte no tempo real e o espectador vai encontrar Santiago nos confins gelados e desolados do extremo sul da Argentina, tentando sobreviver como trabalhador desqualificado num precário aeroporto de fim de mundo na companhia de pessoas duras, todas párias à sua maneira. A narrativa dolorosa de Trapero é construída especialmente com a colaboração do fotógrafo Bill Nieto, que empresta soberbo tratamento visual à extensão deste exílio de purgação do personagem, com ênfase no branco como a cor ausente, como a dor presente, como a negação, como o estado do nada captado na plenitude da tela imensa do cinemascope.
A paginação do festival não quis saber de amenizar a jornada e não perdoou. Na segunda metade da programação, o brasileiro ''Deserto Feliz'', do pernambucano Paulo Caldas, também percorreu os caminhos áridos da alma de sua personagem, a adolescente Jéssica. Mas, ao contrário do colega argentino Trapero, que afinal sinaliza rumo à redenção, o destino da garota é não encontrar saída. Aqui, o discurso como componente social é indissociável da sobrevida existencial.
Jéssica mora com a família no interior nordestino. É explorada sexualmente pelo padrasto, um predador que também manipula seres irracionais envolvido com tráfico de animais silvestres. A garota foge desta humilhante e desumanizadora rotina, e chega ao Recife já como menina de programa com foco específico no turismo sexual. É neste contexto que ela se envolve afetivamente com um alemão, com quem viaja para Berlim. Mas o paraíso do primeiro mundo também se revela sem perspectivas. O vazio é a companhia permanente de Jéssica.
Paulo Caldas, que fez dupla com Lírio Ferreira em ''Baile Perfumado'', um dos títulos mais interessantes do período da retomada, usa e abusa de elipses como linguagem narrativa, evidentemente com o propósito de desdramatizar ao máximo a trama. Neste sentido, o aspecto documental ganha ênfase, e a roda viva das meninas de programa é realçada em sua sordidez.

* O jornalista está em Gramado a convite da organização do festival

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