O 33º Festival do Gramado Cinema Brasileiro e Latino começou mais ou menos no horário combinado, mas se estendeu além da conta, em ritmo de oficialidade na Rua Coberta em frente ao Palácio dos Festivais, apresentação briosa da Sinfônica de Porto Alegre (uma das melhores do país), discursos, o menu de sempre, esticado. Assim, a proposta de dar início mais cedo à programação e aliviar a carga dos viajantes que passaram o dia em transito aéreo e terrestre ficou na intenção. Ontem, já sem o protocolo de abertura, a torcida era por encontrar aquela agilidade prometida pela organização.
Os concorrentes da primeira noite foram chamados ao palco pela correta dupla de mestres de cerimônias desta 33 edição, o ator José Wilker e a apresentadora Renata Boldrini, uma escolha estratégica da organização, garantida pelo aporte global, leia-se cobertura dos canais pagos Telecine/Globosat. E a melhor atração da jornada inaugural justificou logo de saída a sábia decisão de colocar os documentários brasileiros na grade noturna, de resto confirmando o que muita gente já sabia: o gênero voltou forte para garantir um lugar na afetividade não somente da imprensa especializada, mas o que é melhor, também do público.
''Soy Cuba, o Mamute Siberiano'', de Vicente Ferraz, é um belo filme que fala primeiro ao coração do cinéfilo, mas na mesma medida pode fascinar outras platéias. O documentário é sobre um filme quase desconhecido até pouco tempo atrás, justamente ''Soy Cuba'', realizado pelo diretor russo Mikhail Kalatozov no início dos anos 1960, pouco tempo depois da revolução cubana. E é sobre este filme original e sua redescoberta recente que é preciso falar um pouco, antes de avaliar o excelente documentário de Ferraz.
Tudo começou quando Francis Ford Coppola e Martin Scorsese viram uma cópia do filme que estava na Rússia. Os dois, fascinados, resolveram resgatá-lo do esquecimento. Começou então a circular uma cópia remasterizada de 'Soy Cuba'. Agora, por que teria interessado aos dois cineastas um filme de 40 anos atrás que afirmava a necessidade de uma revolução? E o mais interessante da história: o que aconteceu com este filme que tinha a intenção de ser uma megaprodução e somente ficou em cartaz por uma única semana ?
Para tentar responder essas e outras questões pertinentes, o documentário de Ferraz combina inúmeros depoimentos de pessoas que participaram das filmagens com fragmentos do filme. O original dirigido por Kalatozov e fotografado pelo virtuose Sergei Urusevsky é de uma grandiosidade técnica totalmente inovadora: planos - sequências de vários minutos de duração com uma câmera aérea - alguma coisa que nem Brian de Palma, o rei deste recurso, não teria jamais imaginado. O trabalho de Urusevsky é de uma intensidade e de uma expressividade incríveis. E mais além das questões formais, 'Soy Cuba' ainda deixou marca na história do cinema pelo custo, pela duração e pelo fracasso de bilheteria.
O documentário indaga sobre as causas dessa rejeição, assinalando que para os cubanos (que à época estavam mais próximos do Cinema Novo brasileiro que do cinema soviético) o filme de Kalatozov pareceu muito grandiloquente, pomposo e melodramático em demasia. Que tinha se gastado dinheiro e tempo demais e que era um ''mau filme, com o conteúdo a serviço de belas imagens''. O melhor do filme de Vicente Ferraz é ter sabido amarrar a história do filme épico e mítico com a história da Cuba socialista. Mostrando, de maneira dialética e sem golpes baixos, a esperança e o fervor do povo cubano daquele momento e a resignação e a nostalgia atuais.
Para reflexão, o pensamento do presidente do Instituto Cubano de Cinematografia, Alfredo Guevara, que encerra o documentário. Segundo ele, não é por acaso que, neste momento em que o socialismo é quase peça de arqueologia, se resgate este filme que fala sobre a necessidade de revolução. Hoje é possível desfrutar das imagens imponentes sem a ''periculosidade'' do conteúdo.
Na categoria longa de ficção, Domingos Oliveira tenta repetir a boa acolhida e os prêmios de ''Separações'', há dois anos, com um trabalho recém concluído e de certa forma experimental, a pequena comédia dramática e existencial ''Carreiras''. O título é aquilo mesmo que você desconfiou, há um duplo sentido que se refere à cocaína e à trajetória profissional da personagem.
É quase um monólogo único da personagem Ana Laura, uma jornalista âncora de telejornais de tevê paga apanhada no auge de uma crise de meia-idade. Domingos abre o filme com uma conversa de bar no Baixo Leblon. As pessoas dão opiniões sobre teatro e cinema, as diferenças entre um e outro, altos e baixos de um e de outro. Em seguida o filme se fixa na personagem (interpretada com bravura por Priscilla Rozembaum, mulher e musa do cineasta) e afinal opta...pelo teatro. ''Carreiras'' estaria melhor num palco, absolutamente. Não há justificativa para ''Carreiras'' ser um filme. Ou melhor, segundo Domingos há: foi feito em digital (com resultados técnicos duvidosos) e com baixo, baixíssimo orçamento como alternativa para o cinema brasileiro. Não há como discordar disso. O problema é saber se, além da turma do Baixo, Ipanema e imediações, o filme vai encontrar outras platéias.
Já chegaram todos os convidados da equipe de Tizuka para a apresentação de ''Gaijin -Ama-me Como Sou'', um dos seis longas de ficção na disputa pelos Kikitos. O ator Jorge Perugorria, o produtor Cacá Diniz, a diretora de arte, Yurika Yamasaki, a atriz lodrinense Aya Ono. Hoje à noite é o primeiro duplo teste de fogo para o filme, com direito a julgamento de crítica e público. Há exatos vinte e cinco anos a cineasta estreava na direção e em festivais mostrando aqui mesmo em Gramado o primeiro ''Gaijin - Caminhos da Liberdade''. A expectativa é grande entre os jornalistas, principalmente por esta longamente esperada volta da diretora aos projetos mais autorais.

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