Patriotadas à parte (e como é complicado buscar isenção e equilíbrio neste momento!), só mesmo se os três últimos títulos em competição a partir de hoje forem excepcionais, fora de série mesmo, ou se o júri liderado por um complicado Quentin Tarantino for muito insensível ou incompetente para não atribuir um dos prêmios importantes a ''Diários de Motocicleta'', ignorando as muitas e óbvias qualidades do filme. A co-produção, com bandeiras brasileira, argentina, chilena, peruana, francesa e inglesa, obteve até ontem a mais calorosa recepção entre os filmes apresentados na mais importante seção da mostra, a competitiva e aí registra-se empate técnico diante dos aplausos dados a ''Fahrenheit 911'', o afiado documentário-panfleto de Michael Moore.
Em seguida à concorridíssima exibição matinal para a imprensa, o diretor Walter Salles, os atores Gael Garcia Bernal, Rodrigo de La Serna, Mia Maestro, o roteirista José Rivera e o veterano (83 anos) Alberto Granado, companheiro de Ernesto Guevara na viagem iniciática focalizada no filme, participaram da habitual entrevista coletiva. Diante de uma platéia de jornalistas que lotaram a sala de imprensa, Salles e equipe mantiveram um dos melhores, mais inteligentes diálogos com a crítica internacional nesta edição do Festival de Cannes.
Não há registro, nesses últimos dez anos, de coletiva com diretor brasileiro tão assiduamente disputada, sem sequer uma deserção durante os 40 minutos de duração. Isto se deve não somente ao alto nível de ''Diários'' como ao respeito conquistado por Walter Salles no circuito internacional a partir de ''Central do Brasil''. E pela primeira vez numa coletiva em Cannes ouviu-se português do Brasil, alto e bom som, perguntas e respostas com tradução simultânea para inglês, francês e espanhol. Sem dúvida, outra deferência ao talento cosmopolita de Walter Salles
Na véspera, esgotado pelo trabalho de legendagem do filme em Paris, de onde tinha acabado de chegar, Salles recebeu alguns jornalistas brasileiros para uma conversa informal. Embora o filme já tivesse sido o centro das atenções na pré-estréia para a crítica brasileira, em abril, ele novamente abordou alguns aspectos que considera importantes, como a transformação que experimentou pessoalmente após a experiência de ''latino-americanidad'' durante o processo de preparação e filmagens de ''Diários de Motocicleta''. Ou a participação decisiva de Robert Redford como um dos produtores executivos, sem o qual, segundo Salles, a execução do projeto não teria sido possível. Ele revelou que foi Redford, inclusive, quem indicou o roteirista José Rivera.
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