Um dos filmes vencedores do último Festival de Cinema de Gramado será exibido hoje em Londrina. ‘‘Serras da Desordem’’, dirigido por Andrea Tonacci, traz na bagagem os kikitos de Melhor Filme (que dividiu com ‘‘Anjos do Sol’’, de Rudi Lagemann), Melhor Diretor e Melhor Fotografia.
  O longa é a principal atração de hoje na programação da 8ªMostra Londrina de Cinema. A sessão ocorre às 21 horas na Sala 2 do Multiplex Catuaí, no Catuaí Shopping Center. Antes, a platéia assiste a dois curtas-metragens: ‘‘Fúria’’, do carioca Marcelo Laffitte, e ‘‘O Anjo Daltônico’’, do baiano Fábio Rocha.
  ‘‘Serras da Desordem’’ marcou o retorno de Tonacci ao longa, após 20 anos afastado do gênero, intervalo em que se dedicou à produção de curtas, documentários e filmes institucionais. O novo trabalho mescla ficção e documentário para reconstituir a trajetória do índio Carapiru que, depois de escapar de um ataque de fazendeiros à sua tribo, passa dez anos perambulando pelas serras do Brasil Central até ser encontrado por um sertanista e levado de volta ao Maranhão.
  O filme é baseado em fatos reais. Ao ser capturado, em novembro de 1988, Carapiru virou manchete nacional e centro de uma polêmica criada por estudiosos culturais (antropológos e linguistas) em torno de sua origem e identidade. Para encarnar os personagens da ficção, Tonacci escalou as próprias pessoas que viveram os fatos narrados.
  A começar por Carapiru, que aparece anos mais velho interpretando a si mesmo nessa filmagem de sua trajetória, que começa décadas atrás, quando a tribo em que vivia foi massacrada por criminosos. Além dessa opção na escolha do elenco, a recriação ficcional da experiência embutiu outros elementos que ajudaram a reforçar o tom documental do filme: pesquisa histórica, coleta de depoimentos e utilização de material de arquivo.
  A mistura de registros não passou ilesa pela comissão selecionadora do Festival de Gramado, que classificou o filme como ‘‘Longa-metragem Documentário Ficção 35 mm’’. ‘‘Serras da Desordem’’ dá continuidade à produção de trabalhos ligados à temática indígena, recorrente na carreira de Tonacci, que se dedicou quase uma década à pesquisa sobre o assunto nas Américas. Durante três anos, enfiou-se numa mata, no Pará, em companhia do antropólogo Sidney Possuelo.
  Nascido na Itália, o diretor chegou a São Paulo ainda criança, com nove anos de idade. A família fugia da Europa arrasada pela Segunda Guerra. Dirigiu e fotografou curtas-metragens até 1970, quando estreou em longa com ‘‘Bang Bang’’ (1970), um dos títulos mais cultuados do chamado ‘‘cinema marginal’’, também chamado de ‘‘cinema de invenção’’ ou ‘‘cinema udigrudi’’. Inscreveu seu nome entre os grandes talentos de sua geração ao lado de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane.
  Profissionalmente produz, dirige e fotografa documentários, filmes e trabalhos institucionais. É pesquisador de linguagem audiovisual e atualmente dirige a ExtremArt, produtora e finalizadora dedicada à produção independente. Tonacci chega hoje a Londrina para apresentar o seu filme.

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