CINEMA - Denzel, também bom diretor
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sexta-feira, 08 de agosto de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 
Sorte de principiante? Pouco provável, tratando-se de Denzel Washington, o mais destacado ator afro-americano da geração pós Sidney Poitier - ainda o maior de todos e com inteira justiça reverenciado pelo próprio Washington por ocasião do Oscar, ano passado, pelo trabalho em ''Dia de Treinamento''. Intérprete inteligente, aplicado e com certeza atentíssimo observador, Denzel recolheu todos os ensinamentos que lhe pareceram necessários durante as muitas jornadas nos sets de filmagens e partiu com decisão para encarar um desafio que provoca e estimula com insistência a comunidade de atores: a direção. O resultado dessa primeira aventura por trás das câmeras é o sincero, comovente e muito bem narrado ''Voltar a Viver'', em lançamento em Londrina (veja a programação de cinema na página 2).
Uma dessas histórias que acentuam seu conteúdo baseado em fatos reais, ''Voltar a Viver'' é uma astuta combinação daquilo que de fato ocorreu com certas licenças poéticas que buscam a maior fluidez dramática. Baseado em best-seller autobiográfico de Antwone Fisher (também autor do roteiro, e cujo nome é o título original), o filme concentra os fatos essenciais em três etapas, embora as resoluções do conflito ocorram em tempos diferentes.
É a odisséia humana de Fisher (Derek Luke), cabo da marinha americana, rebaixado por sua conduta violenta e mandado a sessões de terapia em uma clínica naval enquanto não se decide sobre sua permanência ou expulsão do serviço militar.
Em tratamento com o psiquiatra e comandante Davenport (Denzel Washington), inicialmente o paciente resiste a qualquer forma de comunicação. Mas somando método e paciência, Davenport faz Fisher mergulhar em águas profundas, que revelam um núcleo familiar dilacerante: um pai que nunca conheceu, assassinado pela amante pouco antes de seu nascimento, e a mãe atrás das grades e nada interessada em reclamar o filho. Criado em adoção, maltratado e abusado em mais de uma forma, perambulou por albergues e orfanatos para afinal chegar à Marinha. E a novos conflitos.
Com a ajuda da noiva Cheryl e a orientação a princípio terapêutica e depois também afetiva de Davenport, Antwone Fisher sai em busca de suas raízes mais profundas e do caminho até a reabilitação e a maturidade. Hoje o personagem trabalha como segurança dos estúdios Sony Pictures em Los Angeles; sua história foi descoberta pelo produtor e professor universitário Todd Black, que por algum tempo teve Fisher entre seus alunos nas classes de roteiro.
Ao espectador mais fica a questão: mas quem diabos é Antwone Fisher na ordem do dia para merecer o sucesso de um best-seller e um filme generoso como este ? Simples: alguém com uma complicada mas redentora história de vida como milhões de outras. Alguém que, ao contrário de milhões de Antwone Fisher, saiu da obscuridade para contar sua intrincada, rica trama de vivências e penúrias, sua catártica experiência existencial. Um argumento sob medida para o bom cinema contador de histórias, este ultimamente tão em falta.
Superando em alguns momentos o sempre indesejável e incômodo melodramatismo mais derramado, Denzel Washington obtém com naturalidade um clima modulado entre o opressivo e o poético, uma narrativa de textura cálida que somente acentua a esperança e a busca da felicidade. Os atores estão ótimos, principalmente Derek Luke, que impõe ao personagem central angústia e emoção nas doses requeridas.


