Quando a classe cinematográfica literalmente subir a sempre aprazível e reconciliadora Serra Gaúcha para participar do 32º Festival de Gramado Cinema Brasileiro e Latino na bagagem estarão filmes prontos, projetos em gestação e a animada disposição para retomar, em território e circunstâncias apropriados, um debate que tomou a classe de assalto nos últimos dias. No olho do furacão está a extinção da Ancine Agência Nacional de Cinema e sua substituição pela Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual). O texto do anteprojeto de lei, criado pelo Ministério da Cultura e Casa Civil, vazou pela Internet e circulou extra-oficialmente (site www.paytv.com.br ), provocando reações imediatas de segmentos da classe.
Um dos pontos polêmicos do texto, elaborado durante os últimos 14 meses, é que caberia ''adotar as medidas necessárias para o atendimento do interesse público e para o desenvolvimento do cinema e do audiovisual brasileiros'', além de propor outras medidas para a ''observância dos princípios constitucionais e legais relativos à comunicação social'' e, ainda, a ''apreciar (...) os comportamentos suscetíveis de configurar violação das normais legais aplicáveis à exploração das atividades audiovisuais, inclusive a produção, a programação, a distribuição, a exibição e a operação de conteúdos audiovisuais por prestadoras de serviço de telecomunicações...''
Por essa e outras propostas, o governo entrou na mira de críticos do anteprojeto, acusado de ''intervencionismo e dirigismo cultural''. Os círculos oficiais se apressaram em dizer que o texto era ainda ''um rascunho'' e, portanto, passível de reescritura. Depois do tiroteio, na quinta-feira o ministro Gilberto Gil, em tom conciliador, propôs a retirada do artigo 43 do anteprojeto, aquele que permite à Ancinav ''dispor sobre a responsabilidade editorial e as atividades de seleção e direção da programação'' das televisões. Nos próximos meses, órgãos da classe vão com certeza se debruçar sobre a integra do texto, agora disponibilizado oficialmente pelo MinC pelo seu site (www.cultura.gov.br ) com direito a sugestões dos internautas. A proposta oficial de retirada do controvertido artigo 43 acontecerá logo após o encerramento do Festival de Gramado, no próximo domingo. É permitido e lógico antecipar, portanto, muita conversa festivaleira em torno do assunto.
Mas nos próximos seis dias Gramado vai, acima de tudo, ver e discutir muito cinema em ritmo de festa pelo cinquenta anos de emancipação da cidade. São dezenas de títulos, entre longas, médias e curtas metragens em 35m, 16 e Super 8 milímetros que vão desfilar nas telas do Palácio dos Festivais e de salas espalhadas pela cidade, competindo em busca dos troféus Kikito. A abertura acontece amanhã às seis e meia da tarde, com a exibição ''hors concours'' da cinebiografia ''Olga'', de Jaime Monjardim, baseada no best-seller de Fernando Morais, que deverá estar em Gramado com o elenco principal do filme. Entre os homenageados desta edição do festival estão Lima Duarte e Tizuka Yamazaki, que receberão respectivamente os troféus Oscarito e Eduardo Abelin. Geraldo Del Rey, ator de filmes mitológicos do cinema brasileiro como ''Deus e o Diabo na Terra do Sol'' e ''O Pagador de Promessas'', falecido em 1993, receberá homenagem póstuma.
Na programação paralela, um autêntico festival de literatura cinematográfica na já tradicional tarde de autógrafos de Gramado. São mais de 20 títulos, muitos da série ''Aplauso'', da Imprensa Oficial de São Paulo, com direito à presença de biografados famosos como Etty Fraser, Maria Della Costa e Carlos Coimbra. No júri oficial de longas brasileiros e latinos vão atuar o crítico Rubens Ewald Filho, a diretora de teatro Márcia de Canto, a diretora Betse de Paula, o produtor chileno David Mathies, o cenógrafo Daniel Marques, o diretor Djalma Limongi Batista e a atriz Maria Lucia Dahl.

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