CINEMA - Darcy Ribeiro será homenageado nas telas
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segunda-feira, 06 de outubro de 2003
Beatriz Coelho Silva<br> Agência Estado 
A parceria entre o cineasta Sílvio Tendler e o ator Marcos Palmeira no documentário ''Oswaldo Cruz, o Médico do Brasil'', que acabam de lançar, pela Fundação Banco do Brasil, deve render novos frutos. Os dois têm agenda lotada nos próximos meses, mas planejam juntos uma biografia de Darcy Ribeiro, nos moldes de Oswaldo Cruz, só que longa-metragem, para meados 2004. Até lá Palmeira estrela ''Celebridade'', a próxima novela das 21 horas, da Rede Globo, e Tendler finaliza três outros documentários: ''Milton Santos, a Globalização Vista do Lado de cá'', ''Utopia e Barbárie'', sobre a geração que tinha 18 anos em 1968 e um terceiro sobre os 30 anos do golpe militar do Chile, que se completam em 11 de setembro.
''Oswaldo Cruz'' tem 27 minutos e uma narrativa nada tradicional. Não usa cenas, fotos ou outras imagens de época e atores representam os personagens que contam a história em cenários assumidamente falsos. Marcos Palmeira é Oswaldo Cruz, enquanto Giulia Gam faz a mulher dele, Emília da Fonseca. Beth Goulart, Beth Gofman e Marcelo Serrado vivem contemporâneos dos dois. ''Mas os textos são autênticos, nada foi inventado, apesar de não ser um docudrama. Procurei uma linguagem de quadrinhos em função do público jovem e adolescente a que se destina'', conta Sílvio Tendler. ''É uma forma de interpretar o real. Todo documentário manipula a verdade e aqui só estou dando minha versão dos fatos.''
Este é o segundo personagem histórico vivido por Palmeira, que foi também o compositor Heitor Villa-Lobos, na cinebiografia dirigida por seu pai, Zelito Vianna. ''Villa e Oswaldo Cruz são dois grandes personagens, com visões parecidas do Brasil e muito próximas do que eu penso. Com Darcy Ribeiro tenho mais afinidades, porque ele era amigo de meu avô e minha irmã fez muitos documentários com ele. Será difícil representar tudo o que ele significa para o País'', diz o ator. Não que tenha sido fácil ser os outros. Para viver Villa-Lobos, ele se preparou durante dois meses, mas lamenta não ter tido tanto tempo para dedicar-se a Oswaldo Cruz.''Não explorei tudo que havia nesse personagem tão rico. Por isso, seria legal se a gente pudesse explorá-lo mais, suas nuances e tudo que ele pensou sobre o Brasil.''
Tendler prefere investir na história de Darcy Ribeiro, pelas possibilidades de abranger 50 anos da história brasileira ao contar sua vida. Mas, por enquanto, trata de seus outros dois projetos brasileiros que considera duas faces da mesma moeda. ''Utopia e Barbárie' é autobiográfico e olha para o passado, como viveu a minha geração. 'Milton Santos' pensa olha o futuro, o Brasil no século 21'', explica. Ele foi pioneiro ao levar o passado recente do País para o cinema comercial, em filmes como ''Anos JK'' e ''Jango'', ainda no início dos anos 80, nos estertores da ditadura militar, mas nunca tinha abordado sua própria história. ''Falei de outros personagens como Marighella, Castro Alves, Glauber Rocha, mas só a partir do ano passado, quando tive um enfarte, resolvi abrir minha gaveta pessoal, esvaziá-las para meus filhos.''
Oswaldo Cruz entra num circuito alternativo, mas nem por isso tem números menos robustos. Custou R$ 200 mil (fora a pesquisa de quase dez anos) e o DVD sai com 6 mil cópias, acompanhadas de um livro, a serem distribuídos em escolas e outras instituições públicas do País, além de ter exibição franqueada às emissoras que estiverem interessadas. ''Ao contrário dos outros cineastas, que avisam no início dos filmes que a reprodução é proibida, eu quero que todo mundo use e abuse desse documentário'', provoca o cineasta. ''Sempre houve interesse do brasileiro em autoconhecer-se, saber de sua história, mas antes havia um medo que não existe mais. Então, quanto mais gente vir os meus documentários, melhor.''


