CINEMA - Comédia bem no espírito da festa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Muita coisa pesa contra este ''Para Ficar com Polly'', já à disposição na passarela de lançamentos nacionais deste fim de semana (veja a programação de cinema na página 2). A saber: é um argumento de cartas marcadas. A inevitável relação central tem muito mais a ver com um mecanismo de enredos superficiais do que com a construção sólida de personagens. Seu limitado romance é pouco inspirado, e o filme não oferece aquilo que, suspeita-se, tenha sido a pretensão maior: uma comédia emocionante e romântica, no bom sentido. E Ben Stiller é comediante de complicada configuração. Mas então o quê eventualmente pode compensar este panorama pouco estimulante? Ocorre circunstancialmente que se trata de um besteirol, que flerta com a anarquia, que rima com escatologia, que acaba na folia. E daí...
''Along Came Polly'' não é nem de longe engraçado, original ou astuto como ''Entrando Numa Fria'' (aquele com De Niro posando de sogro durão para um apatetado Stiller) escrito por John Hamburg, que roteirizou e dirigiu ''Polly''. Mas trabalhando num contexto que é essencialmente o filme de fórmula, Hamburg é até consistente em situações de comicidade caótica. Esta habilidade, embora tática substitutiva e diversionista para um conteúdo esvaziado de idéias, acaba deixando o filme mais tolerável. Mesmo quando ele alucinadamente corteja o humor paquidérmico e humilhante dos irmãos Farrelly.
''Para Ficar com Polly'' dá a partida de maneira promissora. No primeiro dia de lua-de-mel, o neurótico Reuben Feffer (Stiller) flagra a noiva, Lisa (Debra Messing), trocando figurinhas carnais com seu instrutor francês de mergulho (Hank Azaria). Magoado e furioso, Reuben volta a Nova York e, influenciado pelo narcisista e inepto amigo Sandy (Philip Seymour Hoffman), sai na noite em busca de lenitivos. Numa festa ele encontra uma amiga de outros tempos, Polly Prince (Jennifer Aniston), impulsiva e independente segundo padrões ora vigentes na cartilha de Hollywood. Embora pertença àquela categoria de urbano fóbico, típico sociopata manso incapaz de assumir qualquer risco, físico ou emocional (não por coincidência é justamente analista na área de riscos em companhia de seguros), logo o rapaz cai de quatro pela garota. Polly, por sua vez, faz de tudo para que ele saia de vez do casulo protetor. Complicações à vista, quando Lisa, a noiva permissiva, reaparece em busca de uma segunda chance.
É bastante previsível concluir que a imprevisível Polly, que gosta de dançar salsa e de temperos fortes, vai virar Reuben pelo avesso. E é o que de fato acontece. O clímax do filme não desmente, com a habitual perseguição ao táxi da moça até o aeroporto. A corrida nada ortodoxa de Reuben é para impedi-la de deixar a cidade para sempre. Estranhamente, as situações mais engraçadas são extraídas não da dupla central de personagens, mas do libertário time periférico: o hippie instrutor de mergulho criado por Azaria, o patrão judeu de Reuben, vivido por Alec Baldwin, o indolente melhor amigo Hoffman e até uma doninha (o agora popular ''ferret'') cega a dar cabeçadas pelos cantos.
A inevitável escatologia marca o ponto, com o sempre grosso humor de banheiro aqui a sonora privada transbordante aparecendo pela enésima vez por conta de um Reuben portador de peculiar síndrome no intestino grosso, é claro , uma certa retenção anal...
A propósito do personagem, Ben Stiller é caso único de carisma apoiado em permanente ar apatetado e consolidado a partir de ''Quem Vai Ficar com Mary''. Anniston é esforçada, mas o fôlego de comediante ainda está restrito à limitada formatação de uma sitcom televisiva.


