As longas unhas pintadas com esmalte verde e muita purpurina cintilavam sem parar. Apesar da bengala toda estampada que usa para se apoiar, Dercy Gonçalves gesticulava o tempo todo, deixando claro: ''Não vou fazer show em São Paulo nem em lugar nenhum!'' E arrematou: ''Sou uma mulher que não devia sair de casa. Deus virou para mim e disse: eu te dou 98 anos, mas não abuse.'' A grande dama da comédia nacional, no entanto, confessou que não resiste a um bom jogo de bingo. ''Adoro! Não vou lá para jogar, mas para matar o tempo antes que ele me mate.''
Coberta de lantejoulas da cabeça aos pés dos brincos e anéis aos tênis de sola baixa Dercy desmentiu o boato de que faria uma temporada no Bar Brahma, onde foi realizada uma coletiva de imprensa. Entre chopes, porções de pastéis, acrobacias e algumas bordoadas verbais, a atriz falou sobre as primeiras tomadas de ''Dercy de Cabo a Rabo'', documentário que já começou a ser filmado sob a direção de Ivo Branco.
''Minha vontade é de me declarar, descobrir o porquê de ter vivido tanto. Por que passei de uma cantora de igreja para a pornografia?'', provocou. ''Fui burra, inocente, sem família. Cada um tem seu livre arbítrio, mas o Brasil não tem uma mulher que inventa. Eu tenho que contar a história.''
Do início no circo, desde que fugiu da casa dos pais aos 17 anos em Santa Maria Madalena, região serrana do Rio de Janeiro, passando pelas companhias de teatro mambembes até sua ascensão na Praça Tiradentes, reduto carioca do teatro de revista nas décadas de 40 e 50, tudo deve fazer parte do longa, em forma de imagens de arquivo ou depoimentos. ''Na primeira etapa das filmagens temos o apoio financeiro do Boni'', disse o diretor. ''Daqui a algumas semanas vamos parar para captar mais recursos.''
Anselmo Duarte, Chico Anísio e Odete Lara são alguns nomes previstos para falar de lembranças que envolvem a artista. ''Voltar à Praça Tiradentes pra quê? Tudo acabou mesmo. Sapucaí, Varginha, Alfenas... Em todos esses lugares eu morei'', contou Dercy. ''A minha vida foi o Brasil.''
A mesma mulher que demonstrava impaciência quando o assunto era o passado muniu-se do tom de deboche usual na hora de encarar as perguntas-clichês dos jornalistas. ''Hoje eu comi como uma vaca'', contou, respondendo sobre o que havia feito naquele dia.
''Não estou muito bem esta noite'', um dos motivos de estar sem os cílios postiços. E quem escolheu esta blusa para você?, alguém perguntou. ''É a roupa que eu comprei com o meu dinheiro. É bonita, tem brilho e eu estou com o corpinho bom.'' E o que é o amor, Dercy? ''O amor não existe. Nunca amei ninguém porque não tive tempo hábil.'' E qual a melhor palavra do dicionário? ''Eu nem sei o que é dicionário.''
E, diante de uma repórter que insistia em pedir um ''conselho para os telespectadores que estavam na solidão'', disparou: ''Estímulo para os outros é bom, mas eu também quero para mim.''

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