E acabou emoldurada por muita chuva, a solenidade de abertura do 34º Festival de Gramado - Cinema Brasileiro e Latino, no final da tarde de segunda-feira. A rua coberta em frente ao Palácio dos Festivais abrigou autoridades como o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, e o prefeito de Gramado, Pedro Bertolucci.
Além da Orquestra Jovem do Observatório Pablo Lós, que executou repertório híbrido, dos Beatles ao garboso hino do RS, nomes globais como Antonio Fagundes (um dos homenageados especiais do Festival), Eva Wilma, Lucia Veríssimo e Luciano Zafir foram os referenciais mais notórios para o bom publico que se aglomerou no local, geralmente avesso às pompas e ao tédio da oficialidade.
Mas o destaque mesmo foi para a mudança radical no tempo. Céu carrancudo, raios, trovões e muita água arrancaram sorrisos de alívio do comércio local, estressado pela mesma longa estiagem que entorpece toda a região sul do País. Ontem a temperatura já tinha despencado graus suficientes para justificar clima e paisagem que somente adquirem charme peculiar nos rigores do inverno. Ao que parece, e pelo menos por alguns dias, a honra da tradição local está salva.
Dose dupla de tonelagem respeitável, aquela que a programação de filmes reservou para o discreta platéia da noite inaugural comandada pela pouco inspirada dupla de apresentadores José de Abreu e Andréa Busatto, ele orgulho gaúcho, ela de visual prendado mas de fôlego limitado. Não houve curtas na jornada inaugural, mas os longas acabaram pesando, e muito, para quem estava com o pé na estrada desde muito cedo.
Primeiro longa latino, o mexicano ''Mezcal'', de José Ignazio Ortiz, poderia ser apenas a elegia de ''los borrachos'', dos bêbados de bar, de tanto que se bebe ou se ''entorna'' em cena, segundo reza a definição popular. Não fosse por uma enorme diferença: o mezcal, a cachaça mexicana, é aqui utilizada como elo metafórico entre personagens esmagados por alguma forma de sofrimento. Ao melhor estilo Garcia Márquez, ''Mezcal'' mergulha fundo no poço do abandono, da desesperança, da dor e dos desencontros entre seres humanos devastados por tragédias diversas, ancestrais, imutáveis, lacerantes.
Uma dúzia de personagens se reúne no bar-confessionário de uma pequena cidade mítica chamada Parián. Ali e nas redondezas vão desfilar os dramas de seres consumidos por atos irreparáveis e arrependimentos tardios, por amores desatados e reconciliações impossíveis. O mezcal é a chave: tanto pode libertar para sempre no limbo da inconsciência quanto aclarar e agravar a danação de homens e mulheres envolvidos nas tramas do destino insidioso.
Antes da projeção, o diretor Ignácio Ortiz citou a dramaturgia de Ionesco como referencial possível para que o espectador se aproxime do filme. Mas também a tragédia grega, e as urdiduras shakespearianas, e a literatura sombria do Malcolm Lowry de ''À Sombra do Vulcão'' podem ser detectados sob imagens de intensa beleza, imagens que valorizam permanentemente as forças telúricas, os elementos naturais que a história pretende ressaltar como parte de um quadro maior onde se movimentam os muitos meandros da natureza humana.
Não bastasse esta bela, mas intensa e dolorosa overdose de boas vindas, o representante brasileiro não deixou por menos. ''Serras da Desordem'', de Andréa Tonacci (diretor do cult udigrudi ''Bang Bang'') é um longo e não muito claro libelo em favor das minorias indígenas brasileiras. Impossível rotular o filme com precisão. Há de tudo um pouco: documentário, ficção, docudrama, doc-fic, ficção.
Ao narrar a tumultuada história de Carapirú, índio da etnia avá-carvoeiro do Maranhão, Tonacci pretendeu ao mesmo tempo traçar um painel crítico do País nas últimas décadas. Mas o particular (a tragédia pessoal do índio) e o geral (política oficial indigenista, política de ''Brasil Grande'', exploração indiscriminada e criminosa de bens naturais, descaso, alienação, etc) vivem em rota de colisão ao longo da narrativa, gravada em película e vídeo de alta definição, material colado sem cerimônia com trechos de outros filmes e material de arquivo, como cine e tele jornais.
Um prólogo e um epílogo, porém, compensam a extensa e muitas vezes prolixa e/ou estapafúrdia travessia. Na primeira meia hora, famílias de avá-carvoeiro convivem em harmonia com a natureza, num retrato idílico do paraíso subitamente perdido pela violenta invasão do homem branco. E ao final, Carandiru volta a sua aldeia depois de dez anos perambulando sozinho ou vivendo em pequenas comunidades de sertanejos. O reencontro do índio com a degradação agora instalada entre seus pares é momento para muita reflexão.

- O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Gramado.

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