Um dos destaques da programação paralela da 57º Festival de Cannes que se realiza de 12 a 23 de maio é uma homenagem ao cinema do Brasil, marcada para acontecer entre os dias 14 e 18. Um comitê foi especialmente criado para organizar a mostra. Fazem parte da mini-retrospectiva ''Deus e o Diabo na Terra do Sol'' e ''Terra em Transe'', ambos de Glauber Rocha, ''Vidas Secas'', de Nelson Pereira dos Santos, ''Bye Bye Brasil'', de Cacá Diegues, ''Dona Flor e Seus Dois Maridos'', de Bruno Barreto, e ''Cinema Falado'', de Caetano Veloso.
O cult ''Limite'', dirigido por Mario Peixoto em 1931, também tinha sido selecionado pelos organizadores da mostra, mas a restauração da cópia não vai ficar pronta a tempo. Glauber Rocha, que completaria 65 anos em 2004, será homenageado também com a exibição de ''Glauber, O Filme - Labirinto do Brasil'', documentário de Silvio Tendler. Tanto ''Deus e o Diabo'' como ''Vidas Secas'' foram selecionados há exatos 40 anos para a competição de Cannes. E naquele ano de 1964 a mostra paralela ''Semana da Crítica'' incluía na programação o ''Ganga Bruta'', de Cacá Diegues.
As cópias novas estão sob a responsabilidade da Riofilme, a distribuidora carioca de filmes nacionais, e pelo Grupo Novo de Cinema e TV, principal articulador na comercialização do longas metragens brasileiros no exterior, a partir de festivais como Cannes, Veneza e Berlim. O diretor da Riofilme, José Wilker, vai aproveitar o Festival de Cannes para lançar a Rio Comission, que pretende oferecer uma série de facilidades para atrair ao Rio de Janeiro filmagens de produções internacionais.
Mas o interesse maior da mídia internacional com relação ao Brasil com certeza estará dirigido para a exibição, em concurso, de ''Os Diários da Motocicleta'', dirigido por Walter Salles e produzido por Robert Redford. O filme é um road movie reconstituindo as andanças do jovem e pré-revolucionário Che Guevara pelos caminhos da América Latina, baseado em seu próprio relato publicado em livro. ''Diários'' esteve a princípio escalado para o Festival de Berlim, mas acabou ficando para Cannes, em mais um capítulo nebuloso da competição nem sempre muito ética entre grandes festivais.
No dia 12 de maio, abertura do festival, será exibido, fora de concurso, o mais recente Almodóvar, ''La Mala Educación''. Para o cinema espanhol e para o cineasta, é mais um feito histórico depois do Oscar inédito na categoria de melhor roteiro para ''Fale com Ela'' - a estatueta para melhor filme estrangeiro com ''Todo Sobre mi Madre'' não era o primeiro para o país. Ao se referir à honra de abrir o mais importante festival do mundo, Almodóvar agradeceu a comissão de seleção por ter escolhidos ''um filme madrilenho, espanhol e europeu'', prometendo fazer todo o possível ''para estar à altura deste apogeu''. Mesmo estreando em Madri quase simultaneamente com o atentado terrorista que abalou a Espanha e o mundo, ''La Mala Educación'' foi visto no primeiro fim de semana por 250 mil espectadores, que deixaram um milhão e cem mil euros nas bilheterias de 158 salas. Foi a melhor performance inicial de um filme do diretor.
No encerramento, Cannes vai celebrar os 80 anos daquela que é talvez a mais emblemática marca do cinema mundial. A Metro-Goldwyn Mayer está fazendo 80 anos, e para comemorar será exibido em première mundial, hors concours, o musical ''De-lovely'', biografia romanceada do compositor americano Cole Porter dirigida por Irwin Winkler e interpretada por Kevin Kline, Ashley Judd e Jonathan Pryce, além de estrelas da cena pop e do rock contemporâneo como Alanis Morissette, Robie Williams, Natalie Cole, Elvis Costello e Diana Krall.
E comemorando os dez anos de sua Palma de Ouro com ''Pulp Fiction'', o diretor Quentin Tarantino foi convidado para presidir o júri de premiação. ''É a coroação de uma existência inteiramente dedicada ao cinema, minha obsessão preferida...'' , disse ele.

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