CINEMA - Cannes avança com bons filmes
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sexta-feira, 14 de maio de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes<br> Especial para a Folha 2 
Agora já está valendo a pena. E a Palma. Depois de ''La Mala Educación'' e ''Tróia'', os festivos inaugurais e fora de competição, o Festival de Cannes retoma sua velocidade de cruzeiro com uma seleção que, logo na largada, cumpre a promessa de jogar na vala do esquecimento a terrível edição passada, e até o Hiper Mercado do Filme, depois de flagelado e esvaziado pela Sars que espantou os asiáticos em 2003, volta aos tempos de pleno abastecimento. Apesar de fechado na estréia, o céu de Cannes foi efusivamente iluminado pela estonteante megaprodução de fogos de artifício que se seguiu à abertura de gala. E no dia seguinte a Warner Bros., com a habitual eficiência blockbuster, promoveu a ocupação da Croisette com o pessoal de ''Tróia'', mas já disparando na direção de sua próxima mina de ouro: ''Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban'', previsto para ocupar territórios mundo afora a partir de 2 de junho.
A mostra deste ano está sendo chamada de ''festival intermitente'', já que o secretário do Comando Geral dos Trabalhadores de Espetáculos lembra, a todo momento, que amanhã termina a trégua celebrada dia 11 com o governo e a organização do evento. O acordo estabeleceu pleno funcionamento do festival sob a condição de medidas concretas já. Que até agora não aconteceram.
Enquanto isso, a imagem poética criada há muitos anos pelo cineasta Jean Cocteau continua servindo como uma luva: ''Cannes é mais uma vez este microcosmo do que seria o mundo, se todas as pessoas pudessem se comunicar no mesmo idioma''. Mas na atual modelagem dos festivais, para cada filme dos Coen, de Kusturica, Wong Kar-Wai, Godard ou Kiarostami, é preciso engolir um ''Tróia'' ou similar. Por enquanto, a proporção é tolerável.
Atentem para o ''Esqueceram de Mim'' japonês e em versão semidocumental, com uma dose equilibrada entre fel e lirismo. Como marco zero da disputa, nada mais estimulante e provocador. ''Daremo Shiranai'', ou ''Nobody Knows'', ou ''Ninguém Sabe'', de Hirokazu Kore-Eda, é uma história baseada em fato real ocorrido em Tóquio há 16 anos. Quatro crianças de classe média-baixa, dois meninos e duas meninas, entre 12 e 5 anos e filhos de pais diferentes, são abandonadas pela mãe e forçadas a sobreviver por si mesmas. Akira, o mais velho, tenta como pode dar conta de tudo. Por seis meses, nenhum outro morador do prédio soube da existência dos três irmãos de Akira. Há um mundo fechado, dentro do apartamento: é o limite de segurança para a sobrevivência e para uma infância que, embora calorosa, vai se perdendo aos poucos. Há um mundo aberto, o exterior das ruas e parques: é o convite para a descoberta, o risco e para uma infância que custa a se encontrar.
É o quarto longa de Kore-Eda, jovem cineasta descoberto há dez anos já, na estréia em Veneza. Ele tem o dom da precisão e do detalhe (e da paciência: levou o tempo das quatro estações para concluir o filme) ao narrar esta crônica desencantada e ao mesmo tempo lúdica e poética. Na coletiva, ao lado de seus atores mirins que nunca sabiam qual a próxima cena a ser filmada, o diretor disse que, segundo estatística do Ministério da Educação, em 1987 havia no Japão 533 crianças registradas sem domicílio conhecido, e que este número havia caído para 302 em 2000. Disse também que este número deve ter aumentado proporcionalmente porque o índice de natalidade baixou muito no país. Fica-se imaginando o contingente de akiras nas grandes concentrações urbanas do Brasil. Ou como já dizia e filmava o diretor Murilo Salles, ''assim nascem os anjos''.
A Itália, de onde sempre se espera muito e pouco se obtém, principalmentre em Cannes, mandou para a competição um filme acima da média dos últimos anos. ''Le Conseguenze dell'Amore'' (''As Consequências do Amor''), dirigido pelo napolitano Paolo Sorrentino. Num elegante e impessoal hotel da Suíça italiana, o filme enclausura um homem de meia idade, solitário, rico e elegante, que esconde um segredo. Aos poucos chegam informações para classificá-lo como um periférico criminoso de colarinho branco, ex-consultor financeiro há oito anos confinado pela máfia, para a qual ainda presta serviços. Mas surge uma bela jovem e sacode a poeira do tédio e do isolamento deste homem até então prisioneiro de si mesmo. Ele redescobre o afeto, o medo, a vida. E os riscos desta opção.
O filme é um intrigante, esperto exercício de direção, um gélido suspense existencial retomando um tema caro aos italianos, a crise de incomunicabilidade - e aqui não há como dispensar a lembrança de Antonioni. Um estudo quase científico de um personagem complexo, extremamente valorizado pelo ator Tony Servillo.
Entrando de última hora na relação de concorrentes, ''Mondovino'' é um documentário etílico-político, tão delicioso quanto o personagem retratado, seja ele tinto, branco ou rosé. É do diretor americano Jonathan Nossiter, alguém que sabe do que fala: ele mesmo, que cresceu na Europa por conta das viagens do pai jornalista, se interessa por vinhos desde os 15 anos. Seu longo filme, feito em vídeo digital, se degusta com enorme prazer. Na Itália, França, Estados Unidos e Brasil (Pernambuco), Nossiter fez um trabalho original e apaixonante, que discorre com vivacidade sobre velhas e novas gerações de produtores, sobre a modernidade que invadiu as vinícolas, sobre a globalização que vulgariza o produto, sobre a perda do ''savoir vivre''.
Em busca de sua terceira Palma de Ouro, o bósnio Emir Kusturica fez enorme barulho com uma extravagante e até então improvável mistura de Irmãos Marx com Shakespeare. É ''Jivot Je Cudo'' (''A Vida é Um Milagre''), uma espécie de Romeu e Julieta, uma história de amor cheia de truculência, alegria e dilemas, tendo a guerra na ex-Iugoslávia como pano de fundo. Um filme de ritmo frenético, ao som de trilha musical esfuziante. Um Kusturica autêntico (principalmente pela continuidade temática), embora não plenamente realizado. Mas pode impressionar Tarantino & companhia.


