Pois não é que a última jornada competitiva do 38º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro reservou uma decisiva surpresa? Havia a possibilidade de um concorrente forte, embora mais remota, nada assim muito previsível ou que autorizasse maior otimismo de resto, o retrospecto do autor do filme em questão não autorizava grandes expectativas. Mas até mostras como Cannes e Veneza muitas vezes guardam o melhor para a reta final, e de diretores não consagrados, assim...
Quando foi exibido na noite de segunda-feira, ''Eu Me Lembro'', de Edgar Navarro, deixou de ser aquela mera esperança de filme diferencial e foi logo alçado à condição de favorito, desbancando ''À Margem do Concreto'' e ''O Veneno da Madrugada'', até então muito próximos da premiação principal.
E a recompensa veio em abundância. Além de coroado como melhor filme pelo júri oficial, ''Eu Me Lembro'' levou também os troféus Candango de direção, roteiro, melhor atriz e melhor ator e atriz coadjuvante. E mais um total de R$ 135 mil, cerca de um terço do total da estimulante premiação em dinheiro oferecida todos os anos pelo Festival.
Neste contexto, os grandes perdedores foram a bela adaptação de Garcia Márquez em ''O Veneno da Madrugada'', de Ruy Guerra, e o contundente ''À Margem do Concreto'', de Evaldo Mocarzel. Que acabaram levando apenas, respectivamente, prêmios de fotografia (Walter Carvalho) e direção de arte (Marcos Flacksman); e melhor som pelo júri oficial e Prêmio Dolby. O documentário de Mocarzel sobre a luta dos sem-teto em São Paulo foi ainda considerado melhor longa pelo júri popular, além de ser distinguido também com o Prêmio Especial do Júri. O brasiliense José Eduardo Belmonte acabou premiado pela melhor montagem (com Paulo Sacramento) em ''A Concepção'', que também levou troféus e prêmios em dinheiro pela melhor trilha sonora.
O prêmio de melhor ator foi merecidamente para Fernando Eiras em ''Os Incuráveis'', de Gustavo Acioli. Entre os doze curtas concorrentes em 35mm, o júri oficial optou por ''Rap O Canto da Ceilandia'', de Adirley Queiroz, coincidindo com o veredito do júri popular. O melhor diretor da categoria foi o pernambucano Camilo Cavalcante, por ''Rapsódia para Um Homem Comum''.
A crítica presente ao festival, ao premiar ''Eu Me Lembro'' como melhor longa, justificou a escolha ''pela hábil articulação do memorialismo com a História do País, pela sensibilidade e paixão com que utiliza a musica popular como elemento narrativo, pelo diálogo com a cinematografia universal para traçar seu relato particular''.
Conferidas todas as decisões, não deverá haver contestação (a não ser, claro, por quem deixou de levar este ou aquele prêmio) sobre as equilibradas escolhas do júri, formado pelos cineastas Sylvio Back, João Jardim e Erica Bauer; pelo crítico Luiz Carlos Merten, pelo jornalista e historiador Inimá Simões; pelo roteirista Di Moretti e pela atriz Simone Spoladore.
''Eu Me Lembro'' é um filme instigante por seu valor poético, pelo tratamento do retrato de uma geração a do próprio realizador, nascido em 1948. Com afiada veia satírica e humor sempre presente, Navarro, confessadamente sugestionado por Fellini e De Sica (e isto sem qualquer demérito para o baiano, diante do resultado a partir destas ilustres influencias), fez um inventário existencial de sua trajetória desde criança, ilustrando com belas imagens e sutis comentários os ritos das várias passagens de sua vida até o momento presente, temperando tudo isso não com auto-indulgência, mas com um olhar maduro e reflexivo.
O jornalista viajou a convite da organização do 38º Festival de Brasilia.

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