A estréia nacional está prevista para 4 de março de 2005. Não por acaso. Além de fugir da concorrência dos grandes lançamentos americanos que vão com certeza preencher a faixa nobre do mercado interno até a entrega do Oscar, em fins de fevereiro, ''Gaijin 2'' deve chegar ao circuito nacional em cerca de 100 salas, exatamente na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher. Tizuka Yamasaki sabe disso, e aposta também numa espécie de ''lançamento temático'' que irá alimentar o bom debate daquele período. Ela tem razão. Seu filme, apresentado anteontem em Londrina para uma platéia reduzida cerca de 50 convidados , é um forte, generoso, emocionado tributo às mulheres. Especificamente às pioneiras japonesas que aqui aportaram há quase cem anos e suas descendentes até a recente virada do século. E genericamente a toda condição feminina.
''Gaijin 2'' não está pronto. Neste copião faltam complementos de pós-produção, acertos na dublagem, no som, retoques na imagem, essas coisas técnicas que ajustam o produto para deixá-lo visualmente impecável na sala escura e vai ficar, certamente. A diretora, que acompanhou a exibição, faz de início essas ressalvas. Só por dever de ofício. Porque aquilo que já não pode e nem deve ser mexido está inteiro na tela, entregue com calculada razão e às vezes incontida emoção. E é a emoção que conduz esta história confessadamente autobiográfica, em que Tizuka projetou seu sangue, suas memórias, seu legado. Tizuka é um pouco Titoe, um tanto Shinobu e Maria. Se o premiado ''Gaijin'' era, há um quarto de século, o atestado de comprometimento, e sua primeira bandeira autoral, então ''Gaijin 2'' é a retomada de sua melhor forma como realizadora, depois que, neste meio tempo, seus filmes foram ficando menos interessantes.
Mas não é somente a questão feminina que está posta nesta história-resgate, nesta ficção temperada pelo documento seria injusto e reducionista rotular o filme de docudrama. O filme constrói com afeto, perspicácia e inteligência a ponte entre o ontem e o hoje, entre as dificuldades daquele começo áspero e as aflições deste momento-recomeço, entre as primeiras e centenárias conquistas e a batalha de agora dos dekasseguis. ''Gaijin 2'' constrói suas tramas familiares sem nunca perder de vista o contexto social e político das épocas que a narrativa atravessa. Identidade e cidadania, mesmo em circunstancias adversas, são perseguidas (e afinal obtidas) como valores indispensáveis à plena realização individual e coletiva.
Claro, estas são apenas primeiras impressões. Um pré-texto crítico de uma obra inacabada. Ou um pretexto, apenas para justificar que o filme visto anteontem, trabalho ainda em busca de polimento, emociona sem se perder na pieguice, enaltece sem vanglórias ao som de um soberbo Egberto Gismonti não inédito, aliás há muito composto, à espera apenas do convite para o casamento ideal com as imagens orquestradas pela diretora. Com os amigos-agregados de todas as horas, desde o ''Gaijin'' de 1980 o iluminador Edgar Moura, a irmã e diretora de arte Yurika Yamasaki, o produtor Cacá Diniz , e apoiada principalmente por um elenco nipônico calibrado pela combinação talento-coração, Tizuka fez das tripas produção, multiplicando várias vezes na tela os R$ 9 milhões captados para o filme.
Digo a ela que o projeto mais pessoal de sua carreira valeu pena, e volto a enfatizar a dramaturgia, digamos, feminina. Ela concorda, mas pergunta desconfiada: ''E os homens, você acha que também vão gostar?'' Com certeza absoluta, respondo que sim.

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