Os dados oficiais são da poderosa Motion Pictures Association of América; e não há por que duvidar, já que se trata de tradicional performance de força. Em 2004, o resultado da venda de ingressos nos Estados Unidos e Canadá (considerados um só mercado) alcançou a cifra recorde de US$ 9,54 bilhões, fazendo com que, pelo terceiro ano consecutivo, o total ultrapassasse US$ 9 bilhões - e estamos falando apenas de box office interno, não contabilizados aí os resultados dos 85 por cento da ocupação cinematográfica dos Estados Unidos no resto do mundo.
Este atestado de saúde foi emitido graças a dois fatores: o custo mais baixo do marketing dos filmes e o aumento do preço do ingresso unitário (de US$ 6,03 em 2003 para US$ 6,22 no ano passado), já que o número de espectadores caiu, mas pouca coisa, 1,7%, ainda assim ficando na casa de 1,54 bilhão de pessoas que foram aos cinemas americanos (cerca de 38 mil salas) e canadenses em 2004. Para este exercício de 2005, já no segundo e decisivo trimestre, Hollywood vai exibir fichas poderosas. A meta declarada é ultrapassar os decantados US$ 9 bilhões, depois de um início de ano em fogo brando por conta da discreta safra do Oscar, que andou longe da adesão em massa do espectador. Na multifacetada vitrine de ofertas, parece fora de dúvida que teremos um vigoroso incremento da fórmula ''mais do mesmo''. Isto significa que, além das aguardadas sequelas e refilmagens e exumações que devem levar multidões aos cinemas, as companhias inverteram as prioridades e apostaram mais nos filmes-família, com censura livre (classificação PG ou PG 13).
Ano passado, embora em menor número em relação a filmes para ''maiores'', títulos como 'Shrek 2', 'Os Incríveis', 'Harry Potter' e o 'Prisioneiro de Azkaban' e 'Entrando numa fria maior ainda' suplantaram em renda títulos que requeriam acompanhamento de um adulto (classificação R). Os proprietários de salas tinham pelo menos uma boa razão quando pediram aos estúdios para investir mais no filão ''livre''.
É claro que sempre há mudanças para pouco mais ou pouco menos no cronograma de estréias, mas de modo geral a uniformização, ou o alinhamento ou a globalização, como quiserem, vem ocorrendo com cada vez menor margem de desencontro de datas. A matriz traça o mapeamento e as filiais acatam, cada vez mais afinadas com a mundialização midiática. É preciso fazer circular os filmes com a mesma velocidade da engrenagem que movimenta a informação sobre eles. As imagens estão chegando às telas do grande mercado internacional quase 'on line' - e esta é uma permissão poético-tecnológica que dentro de algum tempo se transformará na mais (im) palpável realidade - a digitalização das cópias, como essas em DVD nas locadoras.
E vamos ao calendário hollywoodiano, mês a mês. Em abril, já chegou simultaneamente às telas norte-americanas e brasileiras o thriller 'A Intérprete' (ceja matéria na página 4). É um suspense por ''dentro'' da ONU dirigido pelo sempre interessante Sidney Pollack, 70, um dos últimos narradores clássicos do cinema. A tentativa de química corre por conta de Nicole Kidman e Sean Penn. Não será um blockbuster, mas é daqueles que não perde dinheiro.
Maio vem com tudo. Abre dia 6 com o grandioso 'Cruzada', de Ridley 'Gladiador' Scott. Custou U$ 130 milhões, já rendeu a primeira polêmica (uma acusação de plágio no argumento, com direito a processo) e ainda vai render outras, por conta do tema ''fundamentalista'' - a batalha entre cristãos e muçulmanos no século 12 pelo domínio de Jerusalém. No dia 13, um acontecimento: a volta de Jane Fonda às telas, depois de 15 anos. Na comédia 'Até que a sogra nos separe', ela é a sogra megera de Jennifer Lopez. E dia 20, a estréia planetária de 'Star wars 3 - a vingança dos Sith', sexto e derradeiro filme da saga, segundo promete o dono do brinquedo, George Lucas. Fechando o mês e abrindo ''oficialmente'' as férias de verão nos Estados Unidos - no Brasil fica para 24 de junho -, a animação 'Madagascar' promete arrebentar seguindo a curta e vitoriosa tradição da DremWorks.
A primeira investida aos Oscar 2006 surge logo a 3 de junho, com o romantizado drama social 'Cinderela Man', novamente juntos os premiados Russell Crowe e o diretor Ron Howard, de 'Mente Brilhante'. No dia 10, 'Mr. And Mrs. Smith', aliás Brad Pitt e Angelina Jolie, devem aproveitar a extensa boataria sobre o triângulo envolvendo o próprio Pitt, Jolie e Jennifer Aniston. A partir dos dias 16 (EUA) e 17 (Brasil), a turma das HQ tem novo encontro com um dos mais populares personagens dos quadrinhos. Chega 'Batman Begins', com Christian Bale (o garoto de 'Império do sol', de Spielberg, alguém já se esqueceu?) como o super-herói e Christopher Nolan na direção - o que terá feito aqui o diretor de 'Memento' e 'Amnésia'? E fechando o mês, a hora do 'revival' mais descarado: estão de volta o velho fusquinha Herbie, agora 'Fully loaded' (Totalmente carregado), e 'A feiticeira', com Nicole Kidman ressuscitando personagem televisivo da sitcom pioneira dos anos 1960. E com direito à outra ressurreição, a de Shirley McLaine.
Julho chega arrasador. Spielberg e Tom Cruise recontam uma das melhores aventuras sobre alienígenas já adaptadas pelo cinema. Baseado em novela de H.G. Wells, 'A Guerra dos Mundos' recoloca ainda o diretor Spielberg em território onde sempre se deu bem como contador de histórias, com o homem às voltas com alienígenas. No dia 15 é a vez de estrear a refilmagem de 'A Fantástica Fábrica de Chocolate', originalmente de 1971. De novo em cena as bizarrices da dupla Tim Burton-Johnny Depp. Mais fantasia está reservada para o dia 29 com 'Os irmãos Grimm', a história dos mais famosos inventores de narrativas infantis dirigida por outro visionário e imaginador, Terry Gilliam.
Agosto encontra logo de início (8) a estréia de Walter Salles em Hollywood: Dark Water', thriller de horror com Tim Roth adaptado de história japonesa também já filmada. A animação voa solta com 'Valiant', aventuras de um pombo- correio herói de guerra (dia 19), e com 'Corpse Bride', nova colaboração entre Tim Burton e Johnny Depp (voz). Já fechando setembro, dia 23, muita curiosidade cerca 'The Pink Panther', prequela com o famoso personagem imortalizado por Peter Sellers sob a batuta de Blake Edwards. Aqui quem faz o inepto e hilário detetive é Steve Martin. E fechando o mês, no dia 30, a versão de Roman Polanski para o clássico 'Oliver Twist', de Charles Dickens.
Outubro reserva para os norte-americanos uma estranha sequela, 'The Legend of Zorro', com Banderas e Zeta-Jones retomando o par romântico de oito anos atrás. A direção é do mesmo Martin Campbell. Já o carro-chefe mundial de novembro é 'Harry Potter e o Cálice de Fogo', de Mike Newell, com a mesma turminha agora promovida a 'glândulas em fogo' e vivendo a quarta aventura criada pela escritora J.K Rowling. Lá como aqui o lançamento é no dia 17. Mas novembro tem também o novo filme de Sam 'Beleza Americana' Mendes, 'Jarhead', drama ambientado na Guerra do Golfo. E tem ainda o sempre talentoso Terrence Malick ('A Linha Vermelha') assinando o épico histórico 'The New World', contando a história da índia Pocahontas.
Finalmente, quando dezembro chegar, será tempo de 'King Kong', versão Peter Jackson. A grande curiosidade é saber como o mago de 'O Senhor dos Anéis' vai segurar as platéias, já que ninguém ignora o que acontece com o macacão Kong. A musa loura da hora é Naomi Watts.

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