Já está em andamento nos Estados Unidos a derradeira etapa de lançamentos da temporada 2003. Outro grande lote de estréias, com especialistas apostando que os diversos títulos em oferta em quase 5 mil salas espalhadas pelo território americano vão deixar nas bilheterias algo entre 800 milhões e 1 bilhão de dólares. Isto porque, os mesmos analistas afirmam, os filmes em desfile são os mais atraentes dos últimos anos, em variedade e em apelo de marketing. Pelo menos uma dúzia teve custo médio de cerca de 100 milhões de dólares, entre filmagens e gastos com campanhas promocionais.
A corrida em massa aos cinemas começou com o fim de semana do Halloween, e deve se prolongar até os dias que antecedem o Natal. Duas fortes razões levam as casas produtoras a concentrar seu poder de fogo neste último trimestre do ano: o número de ingressos equivale a 30 por cento do total vendido durante toda temporada; e aumentam as chances de um ou mais desses produtos alcançar a cobiçada lista de indicados ao Oscar.
A Time-Warner entra nesta disputa com barulho ensurdecedor. Além do último capítulo da trilogia ''Matrix'', já um recordista mundial com os 204 milhões de dólares embolsados apenas nos primeiros quatro dias da simultânea estréia mundial (18 mil cópias, 109 países-mercado em seis continentes), a ''major'' hollywoodiana reservou para a faixa nobre do Natal a derradeira aventura de ''O Senhor dos Anéis'', episódio ''O Retorno do Rei''. E a companhia, que também lançou há alguns dias outro ''hit'', a comédia ''Elf'', tem grandes ambições para dezembro com Tom Cruise em ''O Último Samurai''.
Mas a concorrência tem também seus potenciais candidatos. O selo Disney, depois de emplacar com força ''Piratas do Caribe - A Maldição do Pérola Negra'' (mais de U$ 300 milhões), já está de novo nas telas americanas com outro que promete: ''Brother Bear'', o desenho animado cujo trailer está há seis meses no circuito brasileiro. Não deve repetir o furacão ''Nemo'', mas já fez U$ 63 milhões em três semanas. Até o Natal, a Sony Pictures vai colocar na guerra o armamento mais pesado. Julia Roberts e Jack Nicholson, respectivamente, lideram os elencos de ''Mona Lisa Smile'' e ''Something's Gotta Give''. Vão enfrentar ''Dr. Seuss Cat in the Hat'', comédia com Mike Myers, e uma versão australiana de ''Peter Pan'', ambos da companhia Vivendi. A Buena Vista investiu muito em ''Calendar Girls'', estreando nesta sexta-feira.
Depois de muita controvérsia e polêmica, o impasse entre as grandes produtoras, as menores (leia-se independentes) e a Motion Picture Association of América chegou ao fim. Para tentar impedir a pirataria praticada em títulos que ainda nem tinham chegado ao mercado, a MPAA proibiu o envio de fitas em DVD para os votantes da Academia, que apesar de viverem disso, têm o mau hábito de não frequentar cinemas em Hollywood. Era uma forma de forçar os acadêmicos a ver de fato, na sala grande e em formato original, os potenciais candidatos às nominações ao Oscar. Mas os independentes, sentido-se prejudicados pela ''invisibilidade'' forçada e que fatalmente vitimaria seus filmes em confronto direto com o circuitão dominado pela indústria dos ''blockbusters'', organizaram uma heróica resistência apoiada em nomes de peso, e afinal reverteram a situação. Os DVDs já voltaram a circular, a pirataria com certeza também. E a pressa passou a ser a tônica dominante, já que desde o anúncio da antecipação da cerimônia do Oscar, trazida de março para 29 de fevereiro, os distribuidores trataram de queimar etapas em seus cronogramas, habilitando e agilizando os filmes para exibição. Os cerca de 5 mil eleitores devem (ou deverão) ter assistido todos os filmes em disputa até 17 de janeiro no máximo, quando os votos serão recolhidos para se obter as nominações. A votação final para se obter os premiados termina no dia 24 de fevereiro, e a entrega dos prêmios acontece 29, domingo.
Este ano a correria dos distribuidores começou no início do segundo semestre, mais precisamente nos festivais de Veneza e Toronto. Se até o ano passado eles estavam relutantes em expor seus produtos nessas mostras, competindo ou não, em 2003 as coisas foram bem diferentes. Os certames italiano e canadense serviram este ano de plataformas oficiais e definitivas para o lançamento. No passado, a ordem era esconder os filmes o máximo possível. Agora, vale exatamente o oposto. E vale, além do Oscar, para toda a temporada de premiações, aí incluídos o Globo de Ouro e o BAFTA inglês.
Foi assim com diversos contendores, que já no primeiro semestre iniciaram o circuito festivaleiro em busca da notoriedade. Em maio, o notável ''Mystic River'', de Clint Eatwood, arrasou em Cannes. ''Lost in Translation'', um triunfo de Sophia Coppola em Veneza e Toronto, encontrou bom respaldo de crítica e público em seu recente lançamento americano. Na disputa por nominações nas mais diversas categorias, os títulos são muitos, já lançados ou inéditos comercialmente, com maiores ou menores possibilidades.
Entre tantos, destaque para a comédia dos irmãos Coen (''O Amor Custa Caro''); o último Robert Altman (''The Company''), falando sobre dança; a estréia americana do mexicano Alejandro González I'arritu (''21 Gramas''); o western de Anthony Minghella (''Cold Mountain''); a recusa de Ridley Scott à superprodução (''Os Vigaristas''), o polêmico drama sexy-policial de Jane Campion (''The Cut''); o épico náutico de Peter Weir (''Master and Commander: the Far Side of de World''); o ''thriller'' de Norman Jewison (''The Statement''), o já controvertido ''Beyond Borders'', de Martin Campbell; o volume I de Quentin Tarantino (''Kill Bill''); o novo drama (extravagante?) de Tim Burton (''Big Fish''); o western de Ron Howard (''The Missing'') e um terceiro western do grupo, nova abordagem de um velho tema (''The Alamo'', de John Lee Hancock); a história verdadeira do cavalo ''Seabiscuit'', dirigida por Gary Ross; o campeão de rendas, o adorável ''Procurando Nemo'', talvez o único com a estatueta já garantida, e uma cinebiografia livre do pintor Vermeer, ''The Girl With a Pearl Earring'', de Peter Webber.

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