Não vai ter para mais nenhum lançamento. Estreando hoje no Brasil com o número recorde de 650 cópias (veja a programação de Cinema na página 2) e quase simultaneamente em quase todos os territórios do planeta onde exista uma sala de cinema, sempre com Sam Raimi capitaneando a direção (e na co-autoria do roteiro), esta terceira parte do Homem-Aranha reelabora temas que as duas primeiras tinham desenvolvido e que procedem diretamente da história em quadrinhos original de Stan Lee criada em 1962.
Em plenos preparativos do casamento com sua namorada de toda uma vida (Mary Jane, sempre interpretada por esta Kirsten Dunst com ares de eterna adolescente), Peter Parker (Tobey Maguire) conduz como pode sua proverbial esquizofrenia. Ele disfruta da condição de ídolo popular que seu personagem lhe oferece, segue trabalhando como fotógrafo no jornal diário The Bugle e avança em seus estudos de Física. Mas dois seres simétricos convocarão o herói de novo para a guerra.
Um é seu colega de estudos, o ricaço Harry Osborn (James Franco), que, disposto a vingar a morte do pai, se transformará em arquivilão mascarado, batizando-se com um nome nada original: Novo Goblin. A dupla vingador-vingado se inverte no caso de Flint Marko (Thomas Haden Church), que seria o verdadeiro assassino de Ben Parker, o amado tio de Peter, e que leva o herói a sair de seu semi-ostracismo e a lutar novamente pela Verdade, pela Justiça e pela Vendetta Familiar.
É aí que, usando e abusando de sua adolescência tardia e insegura, surge um alter ego meio torpe, vingativo, impiedoso. Obscuro, enfim. É hora de Raimi incrementar o tema da dupla personalidade, do outro, do Mr. Hyde que habita todo Dr. Jekill. E o que ele faz é distribuir fartas doses de personalidades aos principais envolvidos na trama. E até providencia novo traje ao super-herói - paradoxalamente, é vestindo negro que Parker começa a crescer como pessoa.
Por culpa de uma experiência malsucedida, como sempre acontece nesses casos, Marko se transformou em Homem de Areia, ou Sandman, segundo a iconografia dos comics - torturado e trágico, ele é de longe o vilão mais interessante. Temos então dois vilões. Dois? Não, na verdade três, porque logo mais adiante certo fotógrafo ardiloso (Topher Grace), que pretende dar uma rasteira profissional em Peter na redação, passará a se chamar Venom, outro mascarado dono de uma dentadura e tanto. Então são três? Não, na verdade dois, porque quando surge Venom, Novo Goblin já debandou, convencido de que Peter Parker não lhe deseja mal.
Efeito típico das sequelas. Não apenas se multiplicam e se confundem os vilões como também vários personagens secundários se somam aos já existentes. Entre eles, uma linda amiguinha de estudos (Bryce Dallas Howard), que encherá Mary Jane de ciúmes.
Que Sam Raimi é bom narrador, que o elenco da saga está bem como sempre, que a arquitetura tecnológica de efeitos especiais desta produção de 258 milhões de dólares (segundo se anuncia a mais cara da história, mas somente até daqui a pouco...) é assombrosa - tudo isto é certo. Mas o que também deve ser dito é que este terceiro tempo da aventura carece daquela maior profundidade emocional, daquele peso romântico e do lado mais dark e irresolvido do personagem, elementos que fizeram da segunda parte a melhor de todas.
De maneira plana, ''Homem Aranha 3'' também trata de maldade, de amizade, de redenção, de limpeza da alma e da sempre rentável dicomotia entre Bem e Mal. Luz e sombra habitam não só Parker como os demais. Frases do tipo ''a vingança é um veneno'' ou então ''sempre podemos decidir fazer o que é correto'' contentarão o público adolescente. Que afinal é quem vai transformar o filme em outro midas das bilheterias.

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