Quando chegou à suíte do hotel Excelsior para a entrevista com o repórter da ''Folha'', no último Festival de Veneza, a primeira frase de Denzel Washington foi: ''Sorry, mas sobre qual filme mesmo nós vamos conversar?'' A dúvida e a confusão eram justificadas, já que o ator promovia por lá seus dois mais recentes trabalhos, ''Chamas da Vingança'' e ''Sob o Domínio do Mal''. Pena que, por causa de um acordo da produtora com a mostra veneziana, todas as entrevistas ficaram restritas somente ao primeiro, o ''thriller'' recém-lançado no Brasil, ficando de fora o segundo, justamente o melhor. Que é este que entrou ontem em cartaz (veja a programação de cinema na página 2). É um filme tão necessário (e agora urgente) quanto o original, realizado há 42 anos. E quase tão bom quanto sua fonte, ainda hoje exemplo de grande cinema político.
Inquietante dentro de seu perfil de modernidade, ''Sob o Domínio do Mal'' não conta nenhuma novidade que já não se soubesse ou se intuísse sobre a política que se pratica nos Estados Unidos. Trata-se de um remake da clássica obra-prima de 1962 dirigida por um dos sólidos talentos daquele período, John Frankenheimer, da mesma geração liberal de gente combativa posicionada mais à esquerda, todos egressos da televisão, gente do calibre de um Arthur Penn (''Bonnie and Clyde'') e Sidney Lumet (''Doze Homens e Uma Sentença'').
Naquele filme, providencialmente já disponível em boa cópia em DVD, um roteiro com afiada lâmina de bisturi fazia uma incisão crítica profunda e certeira nos mecanismos da guerra fria. Durante o conflito armado da Coréia, militares americanos eram submetidos à lavagem cerebral. De volta aos EUA como heróis de guerra, eram então programados para cumprir ordens comunistas de sabotagem, mediante hipnose. Como, por exemplo, assassinar políticos liberais influentes. Quem controla um deles é a própria mãe incestuosa, espiã comunista que a maravilhosa Ângela Lansbury transformou na mãe de todos monstros. O filme dispara tanto à esquerda quanto à direita, e é esta posição de independência ideológica, somente à serviço da denúncia da paranóia, o grande diferencial. A versão de Frankenheimer também fascinava pela química empregada, um mix explosivo de realidade e simbolismo com pitadas de fantástico.
E agora, o que temos? Graças a um diretor como Jonathan Demme (''O Silêncio dos Inocentes'') e a um roteiro engenhoso que alterou boa parte do original mas não traiu aquele espírito conspiratório, a versão 2004 de ''Sob o Domínio do Mal'' é boa. O Kuwait substituiu a Coréia e o inimigo já não é mais ameaça externa (russos ou chineses), mas está alojado no próprio coração do sistema, onde é cada vez mais poderosa a influência das grandes corporações industriais, financeiras e militares. E em lugar de prosaicas lavagens cerebrais feitas a meio século, sofisticados microimplantes cirúrgicos.
Denzel Washington é o veterano da Guerra do Golfo atormentado pelo pesadelo de sua quase morte em batalha, evitada pela coragem de um oficial, hoje influente político em ascensão (Liev Schreiber) graças ao marketing doméstico e público a cargo da supermãe Mery Streep, senadora influente e maquiavélica - quase à altura da genialidade de Ângela Lansbury. A partir deste triângulo e da convicção forjada a sangue e ferro retorcido nesta era Bush, o diretor Demme devassa o estado de paranóia que nos Estados Unidos é impulsionado a partir de várias frentes. A convicção é de que nada é confiável, especialmente nos círculos onde se luta pelo poder. Esta refilmagem e seu relançamento neste momento da História somente reforçam todas as evidências catalogadas por Michael Moore e tantos outros investigadores denunciando hoje a doutrina Bush. Pode não ser muito original, mas é sempre válido e relevante, além de provocar reflexão e oferecer bom material de análise para persistir um bom tempo após a projeção.

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