CINEMA - A cor da pele
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de janeiro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Logo de saída, e por conta de preguiçosa prática recente das distribuidoras, não confundir este título com outro quase igual, ''Revelação'', o ''thriller'' sobrenatural de 2000 com Michelle Pfeifer e Harrison Ford. Aqui estamos no plural, e de resto as ''Revelações'' deste batismo inadequado nada têm do outro mundo. Pelo contrário, são bem deste nosso. São verdades e mentiras em torno das aparências e da recusa da própria identidade em função delas.
Quando me aproximei do filme ano passado no Festival de Veneza foi exclusivamente pela obra literária de Philip Roth, ''The Human Stain'', no Brasil ''A Marca Humana'' (Companhia das Letras), e pelas credenciais do roteirista-diretor Philip Roth, embora Sir Anthony Hopkins, presente à mostra, fosse também apelo considerável. O texto do premiado Roth (''O Complexo de Portnoy''), suas implicações humanas e sociais ao falar sobre racismo, hipocrisia e integridade, bem como a correção de Benton autorizavam uma expectativa favorável. Afinal, em parte concretizada, em parte frustrada.
''Revelações'', em cartaz em 83 salas de 32 cidades do país (veja a programação de cinema na página 2), conta a história de um personagem fascinante. Coleman Silk (Hopkins) é um maduro, importante professor de Literatura Antiga do New England College. Por um desses absurdos que só fazem sentido diante da onda de conservadorismo e da paranóia do politicamente correto que invadiu os Estados Unidos a partir do fim dos anos 1960, culminando em 1998 com o escândalo Clinton/Lewinsky, o professor Silk é obrigado a se aposentar. Ele tem uma relação com Faunia (Nicole Kidman), mulher bela e muito mais jovem, menos educada e de classe social inferior a sua. E com um passado obscuro. Mas por outro lado Silk é um afro-americano que esconde a raça e a família, que repudia a mãe, que vive dentro e em torno de uma grande mentira.
Benton toma o tempo necessário para que o espectador possa assimilar e viver a história. Seu classicismo narrativo, virtude quase banida do cinema americano atual, só encontra paralelo em Clint Eastwood. E isto, este estilo, é um dos destaques positivos neste filme desigual. O que desequilibra a narrativa são várias outras histórias e tramas intercorrentes que o roteirista Nicholas Meyer não cercou de maiores cuidados e o diretor Benton não se arriscou a concluir, aparecendo com indecisão ou simplesmente se omitindo por precaução. Enquanto Hopkins está bem, contido em um estudado comedimento, Nicole Kidman sofre de certo deslocamento, quase sempre parecendo uma escolha improvável e/ou equivocada para o papel.
Hoje, excepcionalmente, deixamos de publicar a coluna Reality Show.


