CINEMA - A arte de um certo Apolônio
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de dezembro de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba Parece impossível que um filme dedicado a contar a história dos anos dourados da música brasileira inclua uma discussão tão inusitada e aparentemente distante do tema principal como a clonagem. Pois em ''Apolônio do Brasil - Campeão da Alegria'', filme dirigido por Hugo Carvana que estreou neste final de semana, com modestas dez cópias distribuídas pelo Brasil, isso acontece. Um cientista maluco quer comprar o cérebro de um dos músicos mais criativos do País para descobrir a origem de tanta alegria e, posteriormente, vendê-la em fórmulas concentradas. Entendeu? Bem, com o diretor explicando fica mais fácil.
Em entrevista à Folha 2, por telefone, Carvana revela que sua intenção foi incluir uma discussão surrealista no roteiro, já que os outros personagens e a própria temática principal do longa-metragem segue tão realista. ''Foi um jeito que eu encontrei para tornar a história farsesca, próxima da chanchada'', conta o ator e diretor que acumula quase cinco décadas de carreira. E foi exatamente no começo da carreira artística que Hugo Carvana começou a se apaixonar pela noite carioca e seus personagens peculiares.
Em 1984 decidiu colocar todas idéias e experiências vividas nesse cenário no papel. Começou o que seria o roteito do longa ''Apolônio do Brasil'', assinado em parceria com Denise Bandeira, Joaquim Assis e Mauro Wilson. Há três anos, o longa começou a sair do papel, ainda sem o personagem principal definido. O que a equipe de produção, e o próprio diretor, sabiam é que o ator precisava ser eclético, cantar, dançar e acima de tudo, interpretar bem. Depois de assistir a um espetáculo em que o ator canta o trecho de uma música, Carvana escolheu o protagonista de seu filme: Marco Nanini.
''Ele é um dos melhores atores que conheço e caiu como uma luva no personagem'', derrete-se o diretor. Sem exageros. Nanini interpreta magistralmente um Apolônio que bem poderia ser qualquer um dos grandes músicos que o Brasil reconheceu. O ator canta, dança e convence ao dublar o piano, o instrumento que o personagem domina. E é exatamente em suas cenas que o filme, que custou pouco mais de R$ 3 milhões, reserva seus bons momentos.
A intenção de tornar absurda a discussão sobre a clonagem encampada pelo diretor só vale pela interpretação de José Lewgoy no papel do médico (o ator morreu pouco depois do final das filmagens) já que se perde dentro de uma temática que parece ter interesse e apelo maior. Além de Nanini e Lewgoy, o elenco é formado por Antônio Pitanga (marido de Benedita da Silva), Caio Junqueira, como o jovem Apolônio, Antonio Pedro e Louise Cardoso, além da atriz e cantora gaúcha Alessandra Verney, para citar alguns.
O filme se passa em dois momentos principais, o passado e o presente. Conta desde a infância de Apolônio no orfanato, até sua fuga e fim de carreira, que coincidiu com a extinção das grandes boates do Rio de Janeiro. A grande sacada é a trilha sonora. A música faz um bom e longo passeio das músicas que marcaram a história do País entre as décadas de 40 e 70. Algumas delas, além da interpretação de Nanini, incluem também coreografias, como a ótima cena do hospício em que o ator canta ''Neurastênico'' (Betinho e Nazareno de Brito). A música foi gravada recentemente pela banda curitibana Relespública.
As cenas são intercaladas e exatamente por isso, o filme oscila entre maus e bons momentos. Ótimas são as cenas de Apolônio e sua trupe, mas quando o assunto é a ciência, o absurdo pretendido por Carvana chega a ser desconcertante. Principalmente quando uma mendiga (Vera Holtz) com conhecimentos para lá de acadêmicos destila uma lição de moral sobre a clonagem e a pretensão do homem de em ser Deus. Ninguém merece!


