Cinéfilos se despedem do Cinearte, na avenida Paulista, em última sessão


Clara Balbi - Folhapress
Clara Balbi - Folhapress

Cerca de 50 pessoas se reuniram na noite de quarta (19) para dar adeus ao Cinearte, tradicional cinema paulistano localizado no subsolo do Conjunto Nacional, na avenida Paulista, que encerrou suas atividades.

O espaço perdeu o patrocínio da Petrobras, em vigor desde 2018, em março do ano passado. Programador da sala, Adhemar Oliveira conta que a estatal havia enviado um contrato renovando o apoio por mais dois anos quando, em fevereiro, decidiu suspendê-lo.



"Até dezembro, tentamos. Estava impossível de continuar", diz Oliveira, que também administra o Espaço Itaú e o Cinesala. No ano passado, o Cinearte recebeu pouco mais de 109 mil espectadores e obteve um faturamento total de aproximadamente R$ 1,3 milhões, segundo dados do Filme B.

"O Cinearte é uma luta que travamos há 22 anos. Mas, neste momento de conjuntura inglória, é altamente necessário para esse modelo com filmes independentes ter parcerias."

Oliveira afirma que uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos cinemas de rua são os custos altos de aluguel -os shopping centers, onde ficam quase 90% dos cinemas no Brasil segundo a Ancine (Agência Nacional do Cinema), costumam oferecer condições melhores nesse sentido, diz.

Além disso, o Cinearte só tem duas salas, sendo uma de 300 e outra de 100 lugares. Uma desvantagem para o programador, uma vez que ele tem uma oferta de títulos mais limitada.

Por fim, a opção por exibir títulos produzidos fora de Hollywood trazia desafios extras. "Quando se trabalha com blockbuster, você é um operador da sala. O cinema independente exige que se construa tanto a sala quanto o filme", diz Oliveira.

Na derradeira sessão do cinema, marcada para as 21h30 daquela noite, eram poucos os que não tinham assistido ao filme, "Parasita" -a produção sul-coreana ganhou força renovada no circuito após conquistar o Oscar de melhor filme no início de fevereiro.

Um deles era o servidor público André Amorim, de 31 anos. Nascido em São José do Rio Preto, ele conta que trabalha na região e tinha sido atraído ao subsolo do Conjunto Nacional pelo cheiro de pipoca naquela tarde. Ao descobrir que o cinema fecharia, decidiu adiantar os planos do fim de semana.

A maioria dos presentes, porém, estava ali só para se despedir da sala. O arquiteto Fernando Uehava, 50, descreveu a ocasião como um "velório vazio". Das 300 cadeiras disponíveis, 49 foram ocupadas na sessão.

"Fico muito triste pela cidade. Ela perde seus melhores equipamentos por uma questão que considero política, e não econômica", disse em referência à retirada de patrocínio da Petrobras no ano passado. No mesmo período, a estatal deixou de apoiar diversos festivais cinematográficos, como o Anima Mundi, o Festival do Rio e a Mostra de Cinema de São Paulo.

Uehava declarou ser fã dos cinemas de rua. "Eles fazem com que você tenha uma relação saudável com a cidade. O shopping renega isso, é uma caixa lacrada. Perdemos muito quando as coisas saem da rua."

Outros que afirmaram preferir as salas de rua foram o engenheiro Alberto Milani, 59 anos, o advogado Felipe Souza, 28 anos, e a servidora pública Larissa Freitas, 26 anos. Para eles, os shoppings tendem a ter uma programação menos diversificada, demasiado focada nos blockbusters hollywoodianos.

O Cinearte foi inaugurado em 1963, como Cine Rio, e rebatizado de Cine Arte Um nos anos 1980.

Adhemar Oliveira assumiu o espaço em 1998 e chegou a ter como sócio Leon Cakoff, idealizador da Mostra de São Paulo.

Em 2003, o cinema já passava por dificuldades financeiras. Na época, o arquiteto Nabil Bonduki, então vereador pelo PT, ajudou a organizar uma vigília cinematográfica para chamar atenção para o caso.

Ele também formulou um projeto de lei que isentava os cinemas de rua do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) e de parte do ISS (Imposto Sobre Serviço). A lei, de número 13.712, foi regulamentada três anos depois.

As duas iniciativas ajudaram a atrair patrocínios. De lá para cá, o Cinearte teve apoio de nome em três ocasiões: Cine Bombril, Cine Livraria Cultura e, até março de 2019, Cinearte Petrobras.

Bonduki foi à sessão de "Parasita". Tirando o celular do bolso para fotografar seu ingresso, ele qualificou o fechamento das salas como uma tristeza.

Mas disse ainda ter esperanças de uma reabertura, lembrando o resgate do Belas Artes no ano passado. O cinema, localizado na rua da Consolação, estava prestes a fechar depois da retirada de patrocínio da Caixa Econômica Federal, há exatamente um ano. Três meses depois, a cerveja Petra assumiu o espaço.

Oliveira saiu da sala no início da sessão, por volta das 22h. Rondando o Cinearte, ele conversava com os poucos funcionários que restavam no local. Duas delas, uma com oito e outra com quatro anos de casa, recusaram entrevistas, alegando que não queriam chorar.

"É sempre triste", diz o programador. "Eu fechei três cinemas na minha vida, a minha maior função era abrir cinemas. Mas, quando você ainda tem a crença, continua com ela. Se não der aqui, dá em outro lugar."

CINEMAS DE RUA EM SP

Petra Belas Artes

Número de salas: 6

Ingressos vendidos em 2018: 262 mil

Faturamento médio anual*: R$ 3,8 milhões

Situação: estável; tem patrocínio

Espaço Itaú Augusta

Número de salas: 5

Ingressos vendidos em 2018: 256 mil

Faturamento médio anual: R$ 4 milhões

Situação estável; tem patrocínio

Cinesesc

Número de salas: 1

Ingressos vendidos em 2018: Sem dados (21,8 mil em 2017)

Faturamento médio anual: R$ 206 mil

Situação: estável; tem o apoio do Sesc

Cinesala

Número de salas: 1

Ingressos vendidos em 2018: 49,5 mil

Faturamento médio anual: R$ 1,15 milhão

Situação estável; não tem patrocínio

Cinearte

Número de salas: 2

Ingressos vendidos em 2018: 59 mil

Faturamento médio anual: R$ 1 milhão

Situação: perdeu patrocínio da Petrobras no início do ano

Playarte Marabá

Número de salas: 5

Ingressos vendidos em 2018: Sem dados 

Faturamento médio anual: R$ 3,55 milhões

Situação estável; não tem patrocínio

Reserva Cultural

Número de salas: 4

Ingressos vendidos em 2018: 217 mil

Faturamento médio anual: Sem dados (R$ 4,6 milhões em 2017)

Situação estável; não tem patrocínio

Computa só espaços em que a atividade principal é cinema, portanto exclui salas de centros culturais como IMS, CCBB, CCSP, Cinusp, Matilha Cultural e Lasar Segall; exclui também equipamentos públicos, como o Spcine Olido



*Média da renda obtida apenas com venda de ingressos entre 2016 e 2017 (não há dados para 2018)

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