CINÉFILO FIEL - EUA: a violenta história negra
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de junho de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha2 

"Eu Não Sou Seu Negro" (2017), o essencial documentário em lançamento a partir desta quinta-feira (28), no Cine Com-Tour/UEL, parte de "I Remember This House", livro inacabado do escritor, poeta e pensador nova-iorquino James Baldwin, morto em 1987. Defensor dos direitos civis, Baldwin manteve durante um bom tempo amizade e convívio com os principais líderes do movimento. Estas memórias inconclusas recordam três deles, assassinados antes dos 40 anos: Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King. Baldwin se sentia como uma espécie de testemunha desses acontecimentos que estavam sinalizando a história. E por isso coloca os três personagens num mesmo nível de importância, ao mesmo tempo em que apresenta os conflitos dialéticos entre eles.
Entre outras informações preciosas, por exemplo, o filme recupera o momento televisivo em que Malcolm X acusava Luther King de ser um Pai Tomás contemporâneo, porque para o líder da Nação do Islã a doutrina da não violência pressupunha deixar os afro-americanos indefesos diante dos ataques dos brancos. Segundo Baldwin, King acabou assumindo a maior parte das posturas de Malcolm. Porque, mais do que o choque de lideranças negras, o filme incide na variedade de posturas na luta pelos direitos civis. O próprio Baldwin se define a partir de distanciar-se da maioria das tendências dentro do movimento: não se sentia nem antibranco (ele menciona a professora branca que o inspirou a ser escritor), nem pantera negra, nem cristão.
"A história dos negros na América é a história da América, e não é bonita", disse uma vez Baldwin. O diretor do filme, o haitiano Raoul Peck, nos lembra o caráter profético que essas palavras tiveram em virtude de sua inesgotável vigência. Ilustradas com propaganda discriminatória ao lado de suásticas exibidas por radicais brancos, clips da atriz e cantora Doris Day e fotos de linchamentos, as palavras de Baldwin servem para descrever o ódio e a humilhação e o ressentimento que a comunidade afro-americana vem sofrendo ao longo do tempo.
Os pensamentos de Baldwin ressoam através da voz em off de Samuel L. Jackson, que lê textos do livro inacabado e as cartas do editor, Jay Acton. Mas o filme recupera também várias intervenções de Baldwin na televisão e em todo tipo de espaços públicos. Em alguns momentos pontuais, Peck conecta as reflexões de Baldwin com o momento presente, desde esta violência estrutural que perpetua os assassinatos de adolescentes por parte da polícia até a eleição de Obama, que aconteceu quase meio século depois da profecia de Bobby Kennedy, que antecipou que em 40 anos os EUA poderiam ter um presidente negro.
PROVOCAÇÃO
Mas o alcance de "I am not your negro" é mais amplo, e por isso o torna tão importante para o debate sobre a questão racial. Baldwin entendeu e podemos ouvir ele mesmo dizer no filme que nós, os seres humanos, somos a nossa história. E, ao retratar a história dos Estados Unidos como um processo completamente contaminado pelo racismo, o diretor Peck coloca em questão a legitimidade da democracia ocidental como um todo. Sua estratégia não é sutil e nem pretende ser. Assim como Baldwin, seu objetivo é provocar. E "Eu Não Sou Seu Negro" é uma provocação assombrosamente imaginativa. E plena de sensibilidade e de paixão matizada pela dor, a indignação e a frustração.
Por ultimo, mas não menos importante, duas observações: "I Am Not Your Negro" assume o formato menos comum de filme-ensaio para explorar a experiência da negritude tanto em nível coletivo como pessoal. E o filme oferece a oportunidade de resgatar um escritor pouco conhecido no Brasil, cujas palavras contundentes mas calorosas, vingativas mas ao mesmo tempo cheias de nuances, ajudam a construir esta história de afro-americanos que é também a dos Estados Unidos.
Em tempo: o filme concorreu ao Oscar da categoria no ano passado. Não levou. A estatueta ficou com "O.J.: Made in America". Compreensível: a Academia preferiu premiar a glamorosa e bem mais palatável saga do afro-americano, sangrento e doméstico episódio pontual no imbróglio racista dos Estados Unidos.


