Rio, 09 (AE) - A Cinédia, que foi o maior estúdio brasileiro nos anos 30, 40 e 50, voltará a produzir, depois de 18 anos em que se tornou apenas locadora de equipamento. A iniciativa é de Alice Gonzaga, filha do fundador, Ademar Gonzaga
hoje diretora da empresa, que escolheu o conto Morfina, de Humberto de Campos, para servir de base ao roteiro. A produção está em fase de captação de recursos e escolha de elenco e, se tudo correr bem, começa a ser filmada em setembro, para ser lançada em 2001.
A história passa-se no Rio, nos anos 40, tendo como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial. No entanto, o título mudou para "Hannah", por motivos comerciais: a produtora executiva Jane Guerra Peixe (sobrinha-neta do maestro e compositor) acha que o nome da protagonista da história, uma judia de origem alemã, é mais atrativo para os patrocinadores que o nome de uma droga. Foi por indicação de Jane que Ricardo Favilla foi chamado para a direção. Ele foi diretor-assistente de 18 longas e, em 1999, dirigiu o seriado "Mulher", na Rede Globo de Televisão. O projeto é ambicioso, de R$ 7,6 milhões porque é um filme de época. Mas Jane busca apoio para as cenas mais caras e parceria no exterior, uma vez que serão realizadas filmagens em Paris e Buenos Aires. Tanto Jane quanto Favilla, porém, concordam que o filme terá poucas cenas de estúdio e muita locação, o que torna a produção mais trabalhosa. A paisagem carioca mudou completamente nos últimos 60 anos e só no subúrbio se encontram casas e ruas com a mesma aparência da década de 40.
"Na medida da nossa necessidade, vamos usar recursos de computação e até mesmo artesanais para simular o Rio dos anos 40", adianta o diretor. "Para fazer um filme desse, é necessário muito dinheiro ou muita criatividade", continua. "Desde o início da produção, eu defendo que nós precisamos fazer cinema com padrão internacional, mas sem estourar orçamentos."
Favilla sabe do que está falando. Ele dirigia o filme "O Caso Morel", baseado num conto de Rubem Fonseca. Mas, por falta de dinheiro, o projeto está parado ainda nas filmagens, sem previsão de data para continuar. "Como eu fiquei escaldado dessa experiência, sugeri que o orçamento não fosse muito lá em cima", conta ele. "Mas também não se pode fazer um filme mambembe, a não ser que a pessoa tenha uma idéia completamente genial, porque o público exige a qualidade dos filmes que vêm de fora."
A nova produção conta também, na equipe, com a diretora de arte Yurika Yamazaki e o diretor de fotografia Nonato Estrela. Ela é irmã de Tizuka e atuou nessa função nos primeiros filmes dela. "Como não sabemos direito quando vamos filmar, por enquanto, só estamos sondando os atores, mandando-lhes o roteiro", avisa Favilla. "Não queremos captar em cima do nome deles", completa Jane.
Hannah é a história de uma imigrante que, em razão de uma doença, se vicia em morfina. Para conseguir a droga, ela e o marido têm contato com um alemão suspeito de ser quinta-coluna (como eram chamados no Brasil os espiões nazistas) e membro da polícia política de Getúlio Vargas. "Será um thriller dramático
com grande ênfase no lado psicológico dos personagens", diz Favilla, que promete fugir ao estilo do film noir. "Sei que é difícil quando se ambienta uma história nos anos 40, mas vou fazer um filme mais solar."