A produtora Kinopus em parceria com o Espaço Villa Rica promove neste sábado (22), mais uma edição do cineclube Sessão Kinopus em Londrina. O longa “Malu” (2024, 103 min), inédito ainda na cidade, será exibido às 15h no Villa Rica. Após o filme será realizado um debate on-line com o diretor e roteirista Pedro Freire na Sala Londrina. Os ingressos já podem ser adquiridos no site do Espaço Villa Rica.

Rodado ao longo de três semanas em novembro de 2022 no Rio de Janeiro, o filme acompanha a trajetória de Malu (Yara de Novaes), uma mulher de meia idade com um passado glorioso e que se vê presa em um caos existencial. A complexa relação com sua mãe conservadora (Juliana Carneiro da Cunha) e com sua filha adulta (Carol Duarte) torna a crise ainda mais aguda, em meio a momentos de carinho e alegria entre as três. Um retrato de uma mulher em busca da melhor versão de si mesma.

Orçado em aproximadamente R$ 1,5 milhão, “Malu” estreou em janeiro de 2024 no Sundance Film Festival, nos EUA, e foi o grande vencedor do Festival do Rio do ano passado, ao lado de “Baby”, com 4 premiações: Melhor Longa de Ficção, Melhor Roteiro para Pedro Freire, Melhor Atriz para Yara de Novaes, e Melhor Atriz Coadjuvante para a dupla Carol Duarte e Juliana Carneiro da Cunha. Freire conversou com a FOLHA sobre o filme.

“Malu” é um filme visceral, de emoções à flor da pele, centrado na direção das atrizes e em uma dramaturgia muito sólida do roteiro. O filme é inspirado na figura da sua mãe, a atriz Malu Rocha (1947-2013). Há algo que você descobriu sobre si mesmo e sobre a sua mãe apenas quando realizou esse filme?

Com certeza. Escrever e filmar esse filme acabou sendo um processo enorme de auto-análise - muito embora não fosse essa minha intenção. Muito cedo no processo de escrita entendi que não podia fazer esse filme para mim, pra me curar, eu tinha que fazer pro público, pra contar pras pessoas a história dessa mulher. Então eu comecei a acessar as minhas memórias, anotando todas elas, e depois fui separando o que era pra minha analista e o que era pro filme. Ainda assim, não teve como escapar de ser um processo de auto-análise, e isso acabou sendo muito bom pra mim. Tanto na escrita quanto na filmagem, chorei muito. Minha irmã diz que assistir ao filme foi como fazer uma gigantesca sessão de constelação familiar.

"Malu": filme inspirado na figura da mãe do diretor traz liberdade poética  e equilibra-se em três gerações de mulheres
"Malu": filme inspirado na figura da mãe do diretor traz liberdade poética e equilibra-se em três gerações de mulheres | Foto: Divulgação

Toda vez que se faz um filme biográfico, ainda mais sobre uma figura tão próxima, surge um conflito entre o fato real, que na ficção pode parecer inverossímil, ou, uma ideia dramática muito boa, mas que não aconteceu exatamente dessa forma na vida da personagem biografada. Ocorreu algo similar em “Malu”?

Muitos dilemas, desde o início. O primeiro, que é a principal liberdade poética que eu me permiti em "Malu", foi a decisão de sintetizar a mim e à minha irmã numa única personagem, a Joana. Assim, pude colocar ali coisas que aconteceram comigo e coisas que aconteceram com a Isadora, numa síntese de três mulheres de três gerações que me parece que foi acertada. Ao mesmo tempo, dessa forma também consegui fugir um pouco mais do que já disse acima: esse filme não poderia ser uma auto-análise, tinha que conseguir se comunicar com o público. O Tibira também é uma síntese de três grandes amigos da Malu. A outra grande liberdade que eu me permiti foi o envenenamento. Até onde eu sei, a Lili da vida real nunca tentou envenenar ninguém, mas uma vez, quando eu era criança, ela me disse que ia pagar um homem para matar meu pai, então eu transferi essa pulsão de morte dela - que me marcou a vida - para essa sequência do envenenamento. Fora isso, quase tudo o que está no filme aconteceu mais ou menos daquele jeito mesmo. Acho que o maior dilema era que, como minha mãe já faleceu, eu sempre tinha minhas dúvidas se ela gostaria de ser retratada daquela forma. Porque eu mostro o lado pesado, o lado instável, muitas vezes. Não quis fazer aquelas biopics que vendem uma imagem perfeita do biografado, o mais interessante da Malu Rocha era justamente essa bipolaridade: em menos de cinco minutos ela podia dizer uma coisa absolutamente brilhante e então passar para uma paranóia muito danosa. Mas tentei realmente encontrar a poesia nessa mulher, naqueles sonhos dela de fazer um teatro, nas histórias de um passado rico espiritualmente... Hoje acho que ela teria orgulho do filme, mas tive muitas dúvidas ao longo do processo. Por sorte não sou religioso, senão teria medo dela vir me atormentar à noite.

Pedro Freire: diretor do filme participa de debate on-line com os espectadores depois da sessão em Londrina
Pedro Freire: diretor do filme participa de debate on-line com os espectadores depois da sessão em Londrina | Foto: Divulgação

Alguns diretores dos anos 1970, como Cassavetes, Fassbinder, Rohmer, faziam filmes sobre personagens que conversam, brigam, se amam, se afastam etc. Era um cinema centrado nas relações humanas. Esse tipo de cinema hoje tem poucos herdeiros: Hong Sang-soo, Guiraudie, alguns dos filmes do Almodóvar talvez. Como você se posiciona diante do cinema contemporâneo? Que tipo de cinema você mais quer fazer?

Você foi certeiro nesses nomes. Cassavetes, Fassbinder e eu adicionaria o Bergman são faróis para o “Malu”. Acho que eu me inspiro mais neles do que em qualquer contemporâneo. Sou realmente apaixonado pelo cinema dos anos 60-70, durante muito tempo tive medo disso me tornar um cineasta datado, com um pensamento velho, mas fui entendendo que não há nada mais contemporâneo do que ressignificar o moderno, que é o que eu tento fazer. Me inspiro naqueles gênios pra tentar dizer algo que faça sentido de se dizer hoje. Mas isso não quer dizer que eu não assista e ame muitos e muitos diretores contemporâneos, inclusive esses três que você citou. No caso de “Malu”, foi também uma referência importantíssima o “Professora de Piano”, do Haneke.

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