Cinebiografia de Che Guevara é um dos destaques do Festival de Documentários
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segunda-feira, 12 de abril de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 13 (AE) - Entre competidores e atrações especiais, a programação do "É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários" oferece amanhã (14) alguns finos biscoitos ao cinéfilo paulistano. A começar por "Che, um Homem Deste Mundo", do argentino Marcelo Schapecs, cinebiografia bastante honesta do mitológico Ernesto Guevara de la Serna.
O filme é tradicional e cronológico; começa pela juventude do futuro guerrilheiro, com a viagem de descoberta da América em companhia do amigo Alberto Granado. Depois, entra na fase propriamente revolucionária, com o desembarque em Cuba com Fidel, Camilo Cienfuegos e mais 80 combatentes, a campanha na Sierra Maestra, a tomada do poder, o exercício de cargos como o de ministro da Economia e a fatal tentativa de criação de focos guerrilheiros na áfrica e na Bolívia, onde foi preso e executado. Che é um mito. Schapecs tenta enfocá-lo em sua condição humana, isto é, falível, e por vezes contraditória. Será interessante, depois, compará-lo com o outro retrato do Che
este assinado por Fernando Birri.
"Afinal, Quem É Juliete?", do mexicano Carlos Marcovich, adota uma maneira singular de abordagem da realidade cubana. Se em "Che" sobressaem os antecedentes de uma revolução, com tudo o que ela prometia sobre a nova forma de relacionamento social, "Juliete" traz a amarga realidade dos "períodos especiais" e o desencanto da juventude com a fase heróica da qual ela apenas ouviu falar. Vale em si, mas também como contraponto a "Che".
Dois filmes brasileiros, "Futebol, parte 1" e "Futebol parte 2", de João Moreira Salles, Artur Fontes e Rudi Langeman, são amostra do que melhor se fez até hoje a respeito do esporte mais popular do País. No primeiro segmento, os diretores acompanham, durante dois anos e meio, a vida de meninos que tentam realizar o sonho de tornar-se profissionais da bola. No segundo, sonho conquistado, passa-se à difícil administração da fama e das oscilações da profissão. A ênfase é sempre no aspecto humano dos atletas. Fala de esporte, mas trata sobretudo do País.
"Cine Mambembe", de Laís Bodansky e Luiz Bolognesi, é também um retrato do Brasil, mas com enfoque diferente. Desta vez, é um casal de cineastas que resolve sair pelos grotões munido de um projetor com o qual exibem filmes a quem nunca antes havia entrado no cinema. "Cine Mambembe" é o registro amoroso dessa experiência, em que as pessoas, ao se encontrarem com as imagens, descobrem a si mesmos - o que é, afinal, uma das mais nobres funções do cinema.
Outra pedida certa é "Japão, uma Viagem no Tempo: Kurosawa, Pintor de Imagens", homenagem que o diretor de "Central do Brasil", Walter Salles, presta ao grande mestre japonês Akira Kurosawa, morto em setembro. Presta tributo também ao ator favorito de Kurosawa, Toshiro Mifune.
Com "Hi-Fi", Ivan Cardoso segue em sua linha experimental, já conhecida por quem viu o excelente "À Meia-Noite com Gláuber". Neste, Cardoso procura uma aproximação entre Gláuber Rocha e Hélio Oiticica, aparentados, segundo ele, em termos de visão de mundo e modo de ação artístico. Em "Hi-Fi", seu tema é o concretismo dos irmãos Campos. Para fazer seu comentário cinematográfico sobre o movimento, Cardoso mimetiza o procedimento dos concretos. Em "O Anti-Crítico", Augusto de Campos dizia que a única crítica possível de uma poesia era outra poesia. Aqui é o cinema que comenta o movimento literário, numa operação que eles mesmos chamariam de transsemiótica. Não deixa de ser um exercício interessante.


