A expressão ‘‘Topsy-Turvy’’ , como explicou o diretor Mike Leigh na coletiva que se seguiu à exibição do filme no Festival de Veneza de 99, quer dizer alguma coisa sem pé nem cabeça, ou virada de cabeça para baixo. Ou, ainda por extensão, se aplica aos casos em que situações normais passam por total alteração. Ou, mais ainda, uma referência àquelas peças impregnadas de magia, sortilégios e maldições que proliferavam no teatro inglês a partir de 1870. Esta mesma expressão, segundo o filme, também serve para enquadrar os compositores William Gilbert e Arthur Sullivan, e não apenas para se referindo aos argumentos de suas comédias.
‘‘Topsy-Turvy’’ encontra a dupla em 1884, consagrados e pessoalmente incompatíveis, apesar dos brilhantes resultados dessa aliança artística. O relativo fracasso da última criação aumenta a crise criativa de ambas as partes e impulsiona os dois rumo à tentativa de uma carreira-solo. A separação é quase um fato, apesar dos que circulam ao redor – empresário, o restante da companhia. Mas a inspiração salvadora chega envolta em exotismo oriental. O libretista Gilbert se deixa fascinar por uma exposição japonesas aberta em Londres e começa a dar forma a ‘‘O Mikado’’, afinal a mais famosa opereta da dupla.
Na superfície, o filme é a recriação de um período significativo na carreira desses dois talentos indiscutíveis e legendários, responsáveis por muitas das mais famosas peças musicais da Inglaterra. Um olhar mais atento, porém, vai revelar um exame escrupuloso, detalhado, sutil da criação artística. Indo um pouco além, é ainda possível avaliar a matéria de que está feita a cultura popular. Neste ponto, uma pergunta inevitável: por que Mike Leigh resolveu associar seu nome a este filme de época, suntuoso, preciosista, dispendioso e refinado? Pois foi em pleno apogeu do Império Britânico que o diretor de ‘‘Segredos e Mentiras’’ buscou ressonâncias para aquilo que se passa nas ruas, lá fora, nos dias de hoje.
Olhando de perto, os temas não diferem daqueles que o cineasta aborda em seus apanhados da vida contemporânea. Os prejuízos, a dissimulação, os comportamentos da classe média e as manifestações de sua boa consciência, a tensão entre vida pública e privada ou entre trabalho e prazer, entre as liberdades masculinas e as repressões femininas.
Tudo isso exposto com a habitual precisão e verdade extraídas de um elenco soberbo, graças a um original exercício de improvisação (que estranhamente inclui todo o texto escrito, com diálogos). Outro componente a considerar é a celebração da arte cênica e de todos aqueles comprometidos no processo. Os que amam o teatro vão curtir ainda mais ‘‘Topsy-Turvy’’, porque provavelmente nunca estiveram tão próximos do coração deste fenômeno artístico tal como é apresentado por Leigh.
Em ‘‘Topsy-Turvy’’ não existe apenas a perícia da recriação de uma época. Não se trata somente, para Leigh, de uma questão de cenografia e vestuário, mas de comportamentos, rotinas e estilos aqui e ali temperados pelas novidades trazidas pela modernidade – uma chamada telefônica pode originar cenas deliciosas. A suntuosidade visual do espetáculo e a música de alta qualidade de Gilbert & Sullivan se somam a muitas outras virtudes deste filme obrigatório.

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